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Posts Tagged ‘sexismo’

Deputada Manuela: mulheres são adjetivadas na política

Merece destaque um trecho do post da deputada Manuela comentando o debate na Band, pois resume bem todo o sexismo na política brasileira:

Nossa cultura avançou muito. Prova disso é que mais de 60% do eleitorado brasileiro votou nas duas mulheres para presidente da República. Mas conheço bem esse tipo de adjetivação. Mulheres são adjetivadas na política. Homens muito menos. Lembro quando conquistamos meu mandato de vereadora. Na mesma eleição um jovem homem elegeu-se. O locutor do rádio dizia: “quem esta entrando é aquela jovem bonitinha”. Quanto ao homem, afirmava: “é um jovem competente com origem no movimento estudantil”. Casualmente militávamos na mesma universidade. Eu na oposição, ele na situação. Eu havia feito mais votos. Mas era a bonitinha.

Cada vez que subimos na tribuna indignadas somos tachadas de histéricas. Eles são convictos e ficam perplexos. Nós temos a vida pessoal vasculhada (somos “sapatonas”, como li ontem no twitter sobre Dilma; mantemos relações sexuais com alguém para chegar onde chegamos…). Eles? Bem, ninguém tem nada com a vida pessoal, devemos nos preocupar com a vida pública.

Não deixe de ler o post completo: Uma análise do debate da Band.

Posturas machistas e o debate da Band

A Heloísa Vianna fez uma série de tweets sobre o debate na Band que merecem destaque:

15 tweets sobre o debate de ontem:
1. quem não vota na Dilma por não conhecê-la, devia ter visto o debate, mesmo que fosse pra continuar não votando.
2. e eu que achava que conhecia José Serra, só tive confirmações…
3. Serra não respondeu sobre estratégias sujas da sub-campanha de seu vice Índio da Costa.
4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.
6. Serra não respondeu sobre Paulo Preto, assessor de sua campanha que fugiu com 4 milhões.
7. Serra se enrolou tentando incorporar o falso papel de estatizador (é sério!)
8. Serra terminou o debate implorando votos e oferecendo em troca sua biografia. de novo. melancólico.
9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…
10. Dilma cobra respostas, Serra não responde, mente e ainda sai “mimimizando” pela a agressividade da adversária.
11. a campanha tucana atacou baixo até agora. quando questionada sobre sua baixeza, tergiversou (“tergiversa” foi a palavra da noite).
12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.
15. as pessoas acham que falar “presidenta” é feio, motivo de piada, apesar de estar no dicionário. por que será, né?!

Alguns comentários aos itens:

4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.

O que tem me impressionado na eleição é que José Serra chamou sua família – toda composta por pessoas adultas, capazes e responsáveis – para participar da campanha política, utilizando-a como arma de campanha. E agora que estão sendo feitas as críticas pelo que sua família, especialmente a esposa, anda falando e fazendo em nome da campanha, ele se faz de ofendido, como se a privacidade dos familiares tivesse sido invadida.

Trata-se não só de uma confusão: não estão sendo discutidas questões privadas de sua família. Estão sendo questionadas afirmações públicas ligadas à campanha eleitoral.

Particularmente, não acho que José Serra, em um debate, deva defender a esposa – por ela ser sua esposa. Ela está na campanha por vontade própria, é adulta, capaz, totalmente responsável por suas declarações, e sabe muito bem se defender sozinha (mesmo que seja fazendo de conta que não se lembra de suas afirmações).

Porém, o candidato José Serra tem a obrigação de se posicionar sobre o que as pessoas de sua campanha estão dizendo em seu nome. Se a campanha divulga informações inexatas, ou estimula intrigas e baixarias, e ele é questionado sobre isso, sua obrigação é se posicionar, seja negando as críticas, seja defendendo os participantes da campanha; se for o caso, deve se prontificar a tomar providências. De outra forma, fica parecendo que ele é incapaz de traçar as diretrizes da própria campanha, estimulando a divulgação de informações contraditórias e controvérsias.

9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…

O modelo tradicional de feminilidade (leia-se: machista) exige que mulheres fiquem em segundo plano e ouçam besteiras caladas. Ou, no máximo, que respondam delicadamente, sem ofender o interlocutor, mesmo que ele esteja dizendo as maiores tolices do mundo.

Na vida real, tanto homens quanto mulheres têm personalidades diferentes. Só que aos homens é dada a possibilidade da diversidade. Aceita-se, por exemplo, que Lula seja mais conciliador, que Ciro Gomes seja mais agressivo e sem papas na língua, ou que José Serra sempre se irrite com jornalistas.

Já as mulheres são condenadas ao modelo único machista: se não forem delicadas e submissas, são consideradas agressivas demais. Fica nítido o machismo em seu estado mais puro.

Nesse sentido, é interessante ler o post do Celso Barros observando que os jornalistas homens reagiram muito mal à postura da Dilma Rousseff no debate; jornalistas mulheres foram mais ponderadas. Desconfio que isso aconteceu porque elas sabem muito bem a dificuldade de fugir desse estereótipo de ficar em segundo plano e fingir delicadeza pra não sofrer sanções sociais nem profissionais por conta de uma pseudo-agressividade.

12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.

Na visão machista, mulher é considerada um fantoche e incapaz de pensar por conta própria. Tem de ser muda, ficar em segundo plano. Se tem opiniões próprias, é tratada ou como uma anormal ou como uma pessoa “treinada” por outras. Se suas opiniões são fortes e ela não concorda em ficar em segundo plano, é considerada agressiva, raivosa ou deslocada de função.

Tudo isso é machismo, pois reflete a incapacidade de considerar a mulher como um ser pensante, com vida e opinião próprias, e capacidade plena de expressar suas ideias.

Josias de Souza ataca novamente

E Josias de Souza, que antes comparou Dilma a uma prostituta, agora faz um novo comentário sexista.

Em seu blog na Folha, Josias de Souza coloca como título do post “Boato de lesbianismo levou à agressividade de Dilma“. Quem só lê o título imagina que Dilma, enfurecida com o boato de que é lésbica, se tornou agressiva no debate para combater os boatos que dizem que ela é lésbica.

No post, Josias divulga um dos muitos boatos que estão atingindo a campanha de Dilma Rousseff. O destaque é para um que inventa uma amante para a candidata, sugerindo que foi a gota d’água para a campanha petista passar a atacar os boatos. Isso acaba insinuando uma candidata homofóbica pois, entre tantos boatos, ela teria se incomodado justamente com o que ataca sua heterossexualidade. Ou seja, é uma forma de criar atritos entre Dilma e o movimento LGBT.

Josias se esqueceu de mencionar os muitos outros boatos que têm aparecido para criticar Dilma, e que não têm relação com sexualidade, como uma falsa afirmação de que Dilma não pode entrar nos Estados Unidos, textos falsos atribuídos a celebridades, ou questões sobre liberdade religiosa. Os boatos já desmentidos estão no Seja Dita Verdade e no Dilma 13.

Josias ainda perdeu uma oportunidade de desmascarar pelo menos uma das mentiras. Monica Serra realmente afirmou para eleitores que Dilma é a favor de matar criancinhas. Segundo o Estadão:

Anunciando a quem passasse: “Sou a mulher do Serra e vim pedir seu voto”, Mônica Serra, passou a tarde de hoje em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, acompanhada do candidato a vice na chapa encabeçada por José Serra (PSDB), Indio da Costa (DEM). Na cidade que foi governada pelo candidato ao senado Lindbergh Farias, do PT, nos últimos cinco anos, a mulher de Serra partiu para o ataque à adversária do marido, a petista Dilma Rousseff.

A um eleitor evangélico, que citava Jesus Cristo como o “único homem que prestou no mundo” e que declarou voto em Dilma, a professora afirmou que a petista é a favor do aborto. “Ela é a favor de matar as criancinhas“, disse a mulher de Serra ao vendedor ambulante Edgar da Silva, de 73 anos.

Durante o debate na Band ontem, Dilma Rousseff questionou José Serra sobre essa declaração; ele não respondeu. Josias descreve no post a reação de Monica Serra, na plateia do debate: “Mônica não se deu por aludida. Disse que não sabe do que Dilma está falando“.

Ou seja, Josias perdeu uma ótima oportunidade de esclarecer a situação – e acabou contribuindo pra aumentar a boataria e as mentiras em torno da campanha eleitoral.

Mas você vai votar num homem só porque é homem?

Recebi esta mensagem por e-mail, e desconheço a autoria:

Votar na Dilma só porque ela é mulher? Então todo careca deve votar no Serra, todo crente na Marina e todo velho no Plínio.

Ninguém pergunta “mas você vai votar num homem só porque é homem?“, pois parte do princípio que a política é masculina. Criticam é a mulher que deseja fazer parte da vida política do país.

Constranger pessoas com a pergunta: “mas você vota em mulher só por ser mulher?” é uma forma de afastar mulheres da política, como se uma mulher não tivesse capacidade para representação política em igualdade de condições com um homem.

Isso revela preconceito e incapacidade de perceber que, enquanto persistir esse pensamento sexista, as mulheres estão sendo desqualificadas e impossibilitadas de mostrar seu trabalho político.

Outra coisa que me impressionou nessa mensagem foi a ausência de contextualização política. Carecas nunca foram discriminados politicamente por serem carecas, por exemplo. E o cristianismo é a religião da maioria das pessoas brasileiras; a obrigatoriedade do catolicismo foi abolida no século XIX, com a proclamação da República. Velhice também não é um problema, estão aí diversos políticos na terceira idade pra provar isso.

Mulheres são um grupo historicamente discriminado, independente de idade, aparência ou religião. No Brasil, não faz nem 80 anos que tivemos direito a voto. Faz menos de 50 anos que as mulheres casadas ganharam o direito de serem juridicamente independentes dos maridos, faz apenas 33 anos que obtivemos o direito ao divórcio. A Lei Maria da Penha, para coibir violência doméstica, não completou nem 5 anos ainda.

As mulheres que optam por carreira política, sejam elas de direita, esquerda ou centro, são altamente discriminadas por serem mulheres. E quem diz isso não sou eu, mas elas.

Como mudar isso? Com mais mulheres no poder, oras. É o que venho dizendo desde o primeiro post.

Presidenta ou presidente?

Discutindo a possibilidade de o Brasil ter uma presidenta ou presidente, a Folha de São Paulo [link para assinantes; a íntegra está também na Agência Patrícia Galvão] cometeu um sexismo impressionante:

Segundo especialistas procurados pela Folha, pode-se usar tanto “presidenta” quanto “presidente”, mas a opção pela forma feminina é desnecessária e incomum. (grifos nossos]

Temos poucas mulheres em cargos políticos, mas não são tão poucas assim a ponto de se pretender abolir o substantivo feminino para o cargo dizendo que é uma atividade incomum para mulheres.

E dizer que é desnecessária… só o sexismo mesmo pra inventar que não é necessário existir a forma feminina de um cargo politico, como se as mulheres, que são quase 52% das pessoas aptas para ocupá-lo não existissem.

Já temos vereadorAs, deputadAs, senadorAs, ministrAs, secretáriAs de Estado… qual o problema com uma presidentA, além do sexismo que dificulta aceitar mulheres no mais alto cargo político do país?

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