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Também porque ela é mulher!
Há poucos dias a Cynthia escreveu aqui no blog sobre o tão comum e falacioso argumento “você vai votar numa mulher só porque ela é mulher?” (veja o post aqui). Pretendo com este post acrescentar algumas reflexões sobre o mesmo tema. Por muito tempo minha ‘intuição’ me dizia que havia algum jeito de explicar minha preferência por médicas mulheres, terapeutas mulheres, políticas mulheres. Só não entendia muito bem como e, como tanta gente, me calava diante de tal frase. É importante ressaltar aqui que minha família (núcleo familiar, mais precisamente) é todo de esquerda e as brigas em casa sempre foram entre meu irmão defendendo políticas do Stálin, minha mãe trotskista horrorizada e meu pai, filiado ao PT, sendo chamado de pelego. Um contexto bem particular. No entanto, quando meu feminismo entrava nas discussões, o que sempre voltava era este maldito ‘argumento’: “Uma mulher no poder não é necessariamente bom. Veja o exemplo da Inglaterra ou (mais recentemente, grifo meu) a primeira ministra alemã”.
Devo concordar explicitamente que uma mulher no poder não é necesariamente bom. O problema é ignorar que um homem no poder também não é necessariamente bom. Isso ninguém diz. Muitas historiadoras das mulheres, como a Michelle Perrot, explicam como mesmo dentro de grupos de esquerda a condição de gênero é minimizada para que não ‘atrapalhe’ a ‘causa maior’, que deve ser a ‘causa de classe’. Quando ignoramos a condição de gênero frequentemente apagamos as mulheres, como escrevi recentemente no meu blog (veja o texto aqui).
Após muito matutar sobre o assunto (anos e anos de leituras, universidade, grupos e formações feministas, conversas, blog, debates e afins) tornei muito claro para mim mesma que eu prefiro votar em mulheres, sim. Prefiro médicas mulheres, sim. Prefiro terapeutas mulheres, sim. Prefiro professoras mulheres, sim. Prefiro uma orientadora mulher, sim. E sem vergonha nenhuma. É claro que o currículo da médica conta, a linha que a orientadora segue, a empatia com a terapeuta, o projeto de Estado da candidata política. Mas entre projetos, currículos, empatias e linhas parecidas, prefiro mulheres. Meu primeiro motivo para preferir mulheres é bem simples: foram criadas como mulheres, compartilham alguns dramas e experiências que são muito particulares do nosso gênero (por exemplo sabem que em algum momento da vida poderiam ter tido uma gravidez indesejada – ou tiveram -, drama que não sensibiliza os homens da mesma forma). O segundo é pra realmente reforçar a presença das mulheres em campos onde elas ainda estão em desvantagem (na verdade, segundo a minha pesquisa e outras mais recentes, em praticamente todas as áreas as mulheres têm mais dificuldade de chegar a posições dominantes nas carreiras). Por exemplo, ao preferir uma candidata a deputada federal (em lugar de um homem) estou automaticamente evitando que a minha tentativa de escolher ‘sem considerar o gênero’ na verdade favoreça a manutenção do status quo (= homens na política, mulheres fora da política). Ao preferir uma orientadora, estou reforçando a carreira desta mulher num meio onde poucas mulheres obtém sucesso. Ao preferir uma médica, estou dizendo de certa forma que uma mulher é uma boa profissional num campo que historicamente foi dominado por homens.
É uma militância pessoal, para mim escolher mulheres, votar em mulheres. Se não houvesse nenhuma mulher defendendo projetos políticos do meu interesse, claro, não votaria nelas. Mas como há homens e mulheres nesta situação, voto nas mulheres também por serem mulheres.
Da próxima vez que alguém disser “Você vai votar na Dilma porque ela é mulher?”, responderei de peito cheio: “Vou votar na Dilma também porque ela é mulher”.
Vote Consciente
Iniciativa super bacana: http://www.voteconsciente.org/
O Movimento Voto Consciente tem como objetivo levantar as posições dos candidatos e candidatas a Deputado Federal por Minas Gerais em 2010 a respeito dos direitos civis reivindicados pela população LGBT. Foi enviado a todos os candidatos um questionário em que eles puderam se posicionar como defensores ou opositores de projetos de lei que visam a garantir esses direitos.
Pena que, como disse o Breno F. Ferreira, um dos organizadores do projeto, houve uma resposta tão pequena dos condidatos.
Fátima Oliveira: “As disponíveis na praça são todas mulheres difíceis”
As presidenciáveis e seus problemas: deixa o trem arder
FÁTIMA OLIVEIRA
Médica – fatimaoliveira@ig.com.brO título é inspirado num livro que li em meu tempo de Colégio Colinense: “A Moça e seus Problemas” (Haroldo Shryock). Era leitura compulsória para “as meninas da Casa do Estudante”. Datado de 1954, é uma lavagem cerebral contra os prazeres do parque de diversão que é o nosso corpo. Odiei. Desde sempre, curto estados de paixão, ao contrário das moças de fino trato. Pula!
As presidenciáveis da praça são, todas, mulheres difíceis – que mandam em suas vidas. Gosto! “Pero”, estou de tocaia. Matutando. Há homens amigos das mulheres e mulheres inimigas das mulheres. É assuntar. Deixei de votar em quem criminaliza o aborto e em quem fica em cima do muro, tucanamente, como Lula, em quem sempre votei. Nada mais plumagem de tucano do que Lula no tema aborto. Dá uma no cravo e outra na ferradura. Enchi, mas é o melhor governo da República. Fecha!
Já disse: “Outros temas polêmicos para uns e malditos para outros, que considero relevantes para o debate eleitoral, são: questões pertinentes à plena cidadania de gays, lésbicas e travestis; políticas de ação afirmativa e nelas, as cotas étnicas; e a legalização do aborto, inserida numa perspectiva de justiça social e de ampliação da democracia num Estado laico”. (Contra a vida das mulheres, 4.9.2006). Vou por aí. Valorizo muito meu voto.
E os problemas das presidenciáveis? Todas no fundo do poço da falta de carisma (“dom da graça”). Nenhuma dotada de soft power, o mesmo que chamávamos de élan: aquele apelo de algo mais que enternece e convence as massas – que Lula e Obama têm de sobra. O ar de vestal não basta. Rapapé de Maria Bonita também não. E a honradez, embora indispensável, sozinha não carreia votos.
Heloísa Helena? Ignoro. Não gasto latim com quem desde sempre é contra as mulheres. Marina Silva? Desabrocha como a salvação da lavoura. Erro crasso. Vamos dar a Marina o que é de Marina. Ambientalista reconhecida; senadora mediana; ministra de conveniência (para o governo) e tão-somente inodora na queda de braço dos transgênicos. Deveria ter deixado o governo naquele momento. Por que ficou?
Para uma amiga comum, vê-la apenas criacionista e fundamentalista é pouco para quem “no ministério criou uma sala de oração (será?! Incredulidade minha). Mais um exemplo de misturar o público com o privado. Vai pegar na onda do Obama”. O mérito dela é ter sacudido o debate eleitoral, não pela esperada religiosidade ambientalista, e sim por ter assumido, enfim, que é negra! Obama explica. É o “se colar, colou”.
Dilma Rousseff? Ungida por Lula, em seu estilo arisco a la Maria Moura, agora amaciado pela doença (não há mal que não traga um bem!), cultiva o abominável hábito de “A” tesoura do mundo (apostila da Socila faz falta!), vem embalada no nacionalismo do pré-sal, na proa do discurso desenvolvimentista com os paetês do bem-estar social (Bolsa Família, que defendo) e uma tintura ecológica de último segundo (no horizonte um PAC ambiental – não há mal que não traga um bem!). Nada perto do “Pensar global e agir local”. Um mérito: não escorrega na defesa dos direitos das mulheres.
Minha maior dificuldade com ela: a postura imperial no episódio ministra Matilde Ribeiro. Num tribunal, igual à Santa Inquisição, crucificou a negra! Porém convive, sem dar um pio, com célebres correligionários sabidamente sociopatas e não ousou abater nenhum em voo. Qual é a dela? E haja PAC para sanear o mangue de mágoas. Deixa o trem arder… Quem sabe das cinzas emergirá uma fênix! Aguardo a fênix.
Publicado em: 15/09/2009, Jornal O Tempo
