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Archive for the ‘disciplina’ Category

O machismo de José Serra

Já era de conhecimento público o machismo de José Serra. Em 2009, FHC descreveu Serra para a revista Piauí:

“Antes de decidir, ele ouve bastante gente, mas leva mais a sério as mulheres. Como o Serra é muito competitivo, qualquer conversa dele com um homem tende a se tornar um embate. E com as mulheres ele acha que não tem competição”.

Essa visão de superioridade masculina sobre as mulheres marca os comentários de José Serra. Ele reproduz o cânone machista que inferioriza a mulher, retira dela a autonomia e a transforma em objeto de seus interesses políticos.

José Serra flerta com jornalista quando está sendo entrevistado. E mesmo se dizendo cristão devoto, afirma que na política pode-se ter amantes, desde que seja de forma discreta.

Ele não tem pudor em usar e descartar mulheres na campanha, mesmo que sejam parentes. Colocou a esposa para atacar Dilma falando de aborto. Confrontado sobre esses ataques durante debate televisivo, optou por se calar ao invés de explicar a situação ou defender o posicionamento da esposa. Quando veio a público que Monica e José Serra haviam feito um aborto, Monica foi afastada da campanha.

Ele também usou a filha Veronica: trouxe a público a quebra de sigilo fiscal de Veronica, ocorrida em 2009, acusando o PT de ser o responsável pela quebra de sigilo. No entanto, a quebra de sigilo resultou de disputa entre tucanos mineiros e paulistas. Assim que começaram a divulgar a responsabilidade dos tucanos, e irregularidades sobre Veronica a respeito de quebra de sigilo de brasileiros se tornaram matéria de capa na Carta Capital, Veronica foi convenientemente tirada de foco.

A última pérola machista aconteceu ontem. Em Uberlândia, José Serra afirmou:

“Se você é uma menina bonita, tem que conseguir 15 votos. Pegue a lista de pretendentes e mande um e-mail. Fale que quem votar em mim tem mais chance com você”.

Com isso, ele está sugerindo que função de mulher ser cabo eleitoral, manipulando “pretendentes” (vocabulário do século XIX!), trocando atenção masculina por votos. Em resumo: agir como prostituta, não para obter dinheiro e se sustentar, mas para obter votos para ele. No Twitter, Serra foi duramente criticado e recebeu a hashtag SerraCafetao, que está tendo grande repercussão.

Atenção para o “menina bonita“, que descarta, de uma vez só, as mulheres adultas e as mulheres feias (quem define “feiúra”, se beleza não é um padrão universal?) José Serra está reforçando a misoginia e deixando evidente o contexto machista de toda a campanha eleitoral tucana: papel de mulher é ser bonita, obediente e disposta a favores sexuais em nome de um candidato.

Outros episódios serristas podem ser elencados, como a constante tentativa de desqualificar em termos machistas a candidata Dilma Rousseff.

Fica claro que, para José Serra, lugar de mulher é sob as ordens dele. Ele até ouve os conselhos (será que ouve críticas também?) das mulheres, e depois as deixa em segundo plano, retirando-as do limbo somente quando necessário para atingir fins políticos. Se não os atinge, elas são descartadas e ignoradas.

Fato: José Serra é machista. Ao expor seu machismo continuamente, acaba por perder o respeito das mulheres que têm autonomia, que não querem ser manipuladas, que se recusam a agir como prostitutas eleitorais.

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De feministas de direita a amélias pitbull

Uma das coisas que aprendi sobre o movimento feminista é que ele vai além da oposição direita-esquerda. A história do movimento feminista brasileiro é feita por mulheres dos mais diversos partidos políticos, e vai além disso. Afinal, machismo não escolhe ideologia política ou econômica.

É por isso que não me espanto ao ver elogios à dra. Ruth Cardoso, ou à dra. Eva Blay, entre outras feministas tucanas. Nos tempos dos tucanos no poder, foram elas quem lutaram para que os direitos das mulheres não fossem reduzidos. E, por mais que a atuação delas possa ser considerada discreta, ela existiu e fez a diferença para todas nós.

Infelizmente, a independência e força das feministas de direita acabou. As mulheres de direita em destaque hoje representam um retrocesso no papel das mulheres. O Mobiliza Mulher fez um papelão nesta campanha, Monica Serra escolheu agir de forma constrangedora para apoiar a campanha do marido, e as reuniões de mulheres do PSDB são para serem ouvintes dos homens.

Atenta a essas mudanças de posicionamento, Cynara Menezes escreveu um artigo muito bom para a Carta Capital analisando o papel desempenhado por Monica Serra e Weslian Roriz nestas eleições:

Dona Ruth foi de longe a mais completa das primeiras-damas, mas ainda assim era primeira-dama, não presidente. E vejam só. Agora que se desenha a possibilidade de termos finalmente uma mulher no cargo máximo da Nação, e não um apêndice – admirável ou não -, eis que duas integrantes do sexo feminino saem da sombra onde se achavam para colocar as brasileiras “no seu devido lugar”, com a mensagem subliminar de que não nascemos para presidir, e sim para sermos eternamente primeiras-damas. No máximo, vice-presidentes, cargo que Rita Camata topou ocupar ao lado de José Serra em 2002. Presidente, não. Se ser primeira-dama é tão bom, toda a glória e nenhum poder…

Leia o artigo completo: O levante das Amélias pitbull

Posturas machistas e o debate da Band

A Heloísa Vianna fez uma série de tweets sobre o debate na Band que merecem destaque:

15 tweets sobre o debate de ontem:
1. quem não vota na Dilma por não conhecê-la, devia ter visto o debate, mesmo que fosse pra continuar não votando.
2. e eu que achava que conhecia José Serra, só tive confirmações…
3. Serra não respondeu sobre estratégias sujas da sub-campanha de seu vice Índio da Costa.
4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.
6. Serra não respondeu sobre Paulo Preto, assessor de sua campanha que fugiu com 4 milhões.
7. Serra se enrolou tentando incorporar o falso papel de estatizador (é sério!)
8. Serra terminou o debate implorando votos e oferecendo em troca sua biografia. de novo. melancólico.
9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…
10. Dilma cobra respostas, Serra não responde, mente e ainda sai “mimimizando” pela a agressividade da adversária.
11. a campanha tucana atacou baixo até agora. quando questionada sobre sua baixeza, tergiversou (“tergiversa” foi a palavra da noite).
12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.
15. as pessoas acham que falar “presidenta” é feio, motivo de piada, apesar de estar no dicionário. por que será, né?!

Alguns comentários aos itens:

4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.

O que tem me impressionado na eleição é que José Serra chamou sua família – toda composta por pessoas adultas, capazes e responsáveis – para participar da campanha política, utilizando-a como arma de campanha. E agora que estão sendo feitas as críticas pelo que sua família, especialmente a esposa, anda falando e fazendo em nome da campanha, ele se faz de ofendido, como se a privacidade dos familiares tivesse sido invadida.

Trata-se não só de uma confusão: não estão sendo discutidas questões privadas de sua família. Estão sendo questionadas afirmações públicas ligadas à campanha eleitoral.

Particularmente, não acho que José Serra, em um debate, deva defender a esposa – por ela ser sua esposa. Ela está na campanha por vontade própria, é adulta, capaz, totalmente responsável por suas declarações, e sabe muito bem se defender sozinha (mesmo que seja fazendo de conta que não se lembra de suas afirmações).

Porém, o candidato José Serra tem a obrigação de se posicionar sobre o que as pessoas de sua campanha estão dizendo em seu nome. Se a campanha divulga informações inexatas, ou estimula intrigas e baixarias, e ele é questionado sobre isso, sua obrigação é se posicionar, seja negando as críticas, seja defendendo os participantes da campanha; se for o caso, deve se prontificar a tomar providências. De outra forma, fica parecendo que ele é incapaz de traçar as diretrizes da própria campanha, estimulando a divulgação de informações contraditórias e controvérsias.

9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…

O modelo tradicional de feminilidade (leia-se: machista) exige que mulheres fiquem em segundo plano e ouçam besteiras caladas. Ou, no máximo, que respondam delicadamente, sem ofender o interlocutor, mesmo que ele esteja dizendo as maiores tolices do mundo.

Na vida real, tanto homens quanto mulheres têm personalidades diferentes. Só que aos homens é dada a possibilidade da diversidade. Aceita-se, por exemplo, que Lula seja mais conciliador, que Ciro Gomes seja mais agressivo e sem papas na língua, ou que José Serra sempre se irrite com jornalistas.

Já as mulheres são condenadas ao modelo único machista: se não forem delicadas e submissas, são consideradas agressivas demais. Fica nítido o machismo em seu estado mais puro.

Nesse sentido, é interessante ler o post do Celso Barros observando que os jornalistas homens reagiram muito mal à postura da Dilma Rousseff no debate; jornalistas mulheres foram mais ponderadas. Desconfio que isso aconteceu porque elas sabem muito bem a dificuldade de fugir desse estereótipo de ficar em segundo plano e fingir delicadeza pra não sofrer sanções sociais nem profissionais por conta de uma pseudo-agressividade.

12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.

Na visão machista, mulher é considerada um fantoche e incapaz de pensar por conta própria. Tem de ser muda, ficar em segundo plano. Se tem opiniões próprias, é tratada ou como uma anormal ou como uma pessoa “treinada” por outras. Se suas opiniões são fortes e ela não concorda em ficar em segundo plano, é considerada agressiva, raivosa ou deslocada de função.

Tudo isso é machismo, pois reflete a incapacidade de considerar a mulher como um ser pensante, com vida e opinião próprias, e capacidade plena de expressar suas ideias.

Mas você vai votar num homem só porque é homem?

Recebi esta mensagem por e-mail, e desconheço a autoria:

Votar na Dilma só porque ela é mulher? Então todo careca deve votar no Serra, todo crente na Marina e todo velho no Plínio.

Ninguém pergunta “mas você vai votar num homem só porque é homem?“, pois parte do princípio que a política é masculina. Criticam é a mulher que deseja fazer parte da vida política do país.

Constranger pessoas com a pergunta: “mas você vota em mulher só por ser mulher?” é uma forma de afastar mulheres da política, como se uma mulher não tivesse capacidade para representação política em igualdade de condições com um homem.

Isso revela preconceito e incapacidade de perceber que, enquanto persistir esse pensamento sexista, as mulheres estão sendo desqualificadas e impossibilitadas de mostrar seu trabalho político.

Outra coisa que me impressionou nessa mensagem foi a ausência de contextualização política. Carecas nunca foram discriminados politicamente por serem carecas, por exemplo. E o cristianismo é a religião da maioria das pessoas brasileiras; a obrigatoriedade do catolicismo foi abolida no século XIX, com a proclamação da República. Velhice também não é um problema, estão aí diversos políticos na terceira idade pra provar isso.

Mulheres são um grupo historicamente discriminado, independente de idade, aparência ou religião. No Brasil, não faz nem 80 anos que tivemos direito a voto. Faz menos de 50 anos que as mulheres casadas ganharam o direito de serem juridicamente independentes dos maridos, faz apenas 33 anos que obtivemos o direito ao divórcio. A Lei Maria da Penha, para coibir violência doméstica, não completou nem 5 anos ainda.

As mulheres que optam por carreira política, sejam elas de direita, esquerda ou centro, são altamente discriminadas por serem mulheres. E quem diz isso não sou eu, mas elas.

Como mudar isso? Com mais mulheres no poder, oras. É o que venho dizendo desde o primeiro post.

Antipáticas, generalas, militantes, imorais – sobre Marta Suplicy, Dilma Roussef e Hillary Clinton

Quem lê o meu blog e o outro blog de que participo já me conhece e sabe que, periodicamente, dou ou pego caronas através de esquemas bem-bolados da universidade onde fiz a graduação e onde faço mestrado. Pra você que me lê pela primeira vez aqui no “Sexismo na Política”, muito prazer. O fato é que eu constantemente conheço pessoas com quem passo pelo menos uma hora e meia ininterrupta conversando. Duas vezes por semana. Considerando meu desgosto pela irracionalidade no gasto público tanto do governo quanto da prefeitura de São Paulo torna-se quase impossível não tocar no assunto “política” durante estas viagens – afinal de contas, passamos por estradas privatizadas cujo pedágio não cansa de subir e por obras na marginal que privilegiam uma classe social muito específica da nossa configuração de forças políticas no momento. Além disso, o grande sucesso dos esquemas de carona está diretamente ligado a uma falta de investimento e vontade política para o desenvolvimento de alternativas de transporte entre as duas cidades mais importantes do Estado – São Paulo e Campinas. Enquanto estudantes, o preço de R$21 do ônibus (que não nos leva diretamente à Universidade) é abusivo, não há trem, não há política de meia-passagem. Enfim.

Sou formada bacharel em ciências sociais mas, como expliquei outro dia para uma bixete do meu ex-curso, o que define a sua profissão no meio acadêmico é, de fato, o campo de pesquisa. Sendo assim, sou socióloga da educação ou, para os menos íntimos, socióloga. Sim, justamente a profissão de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Felizmente tenho muita segurança de meus pontos de vista profissionais para não me abalar com piadinhas. Como resultado da minha escolha profissional e da minha formação e militância feministas (na família, na escola, na universidade, na vida), desde o ano passado durante o processo seletivo de mestrado até agora o assunto “eleições 2010” com os eixos transversais de “candidatos” está em pauta nas minhas caronas, sob uma ótica anti-sexista que achei legal compartilhar aqui.

Geralmente o assunto começa com reclamações sobre marginal, enchentes e afins. Declaro meus sonhos secretos (ou nem tanto) de que o Kassab acabe morto com uma flecha de zarabatana envenenada no pescoço ou então de que dependa dos serviços públicos (o que pra ele seria a morte do mesmo jeito). Quando a crítica é lançada (e olha que às vezes nem vem de mim!) a primeiríssima coisa que outros caronistas perguntam é: “em quem votar então?” ou “quem é que foi um bom prefeito então?”, questionamento que vem do maior senso-comum do mundo segundo o qual nenhum-político-presta-então-não-vamos-nos-envolver-com-esta-coisa-suja Já contando com as risadas irônicas desacreditadas afirmo categoricamente: “Marta Suplicy”. Mais risos. E acrescento: “Ninguém nunca em minha vida conseguiu me dar motivos racionais para dizer que ela não foi boa prefeita”. É neste momento que todos se calam porque, óbvio, também não têm argumentos racionais para explicar este outro senso comum, segundo o qual a Marta não foi uma boa prefeita. Com a curiosidade de todos sobre os argumentos racionais que assumo ter para considerá-la uma boa prefeita, então, a conversa segue.

Explico que na gestão da Marta havia coordenadorias especiais que trabalhavam junto a organizações não-governamentais na criação e implementação de políticas públicas (me lembro da de juventude, de negros e negras e das mulheres, mas se não me falha a memória havia outras). Havia o início da implantação de orçamento participativo. Havia representatividade e apoio aos Fóruns dos Direitos da Criança e do Adolescente. Foi organizado um Fórum de Jovens da cidade através de um longo processo o mais democrático possível, pelos próprios jovens que atuavam em organizações que variavam de ONGs a pastorais e grêmios estudantis. Todo o sistema de transporte público foi reformulado, dando diferentes papéis a lotações e ônibus, diferentes rotas, pressionando empresas que antes se impunham ao Estado a servi-lo ao invés de explorá-lo. Trocaram os carros das linhas de ônibus. Implantou-se o bilhete único sem a menor burocracia – duas horas de integração para qualquer um na cidade (e só não se integrou ao metrô porque o PSDB pretendia – e, no fim, conseguiu – eleger Serra para a prefeitura com esta promessa), recarregável em qualquer lotérica. Foram construídos CEUs e pela primeira vez viu-se a prefeitura em SP investir muito dinheiro na educação de quem não tinha nada, educação que ia além de simplesmente abrir uma escola no final de semana (como fazem as escolas do estado) mas que contava com espaço físico e recursos materiais. Material escolar, uniforme e transporte escolar foram assegurados sem custo para os pais. A merenda, muito mais importante do que latas de leite em pó mensais, foi substancialmente melhorada para refeições nutritivas. Vagas em creches foram aumentadas. Investiu-se em paisagismo para que tivéssemos uma cidade bonita (não me venham com discursinhos de palmeiras imperiais os mesmo que depois reclamam que SP é feia e Paris é bonita). Não tanto quanto eu gostaria, mas foram feitas ciclovias além de muitos corredores de ônibus que ainda hoje são os poucos lugares em SP onde ônibus transitam sem entupirem as vias mesmo em dias de manifestação de professores estaduais em greve às sextas-feiras. Criou-se uma política taxativa sobre o lixo com o objetivo de penalizar a produção excessiva já que não há mais aterros sanitários na cidade. Implementou-se o IPTU progressivo. Tudo isto que está devidamente documentado na história da cidade, em apenas quatro anos de governo. Foi um governo com vontade política de melhorar a cidade para todos (ou, pelo menos, para muitos).

Depois desse banho de memória no caronas, certa vez, um deles sabiamente me perguntou: “Se o governo dela foi tão bom, por que então ela não foi reeleita?”. Esta pergunta, vejam bem, caros leitores, assume que as pessoas são eleitas no Brasil pela qualidade do governo. Não tenho a menor dúvida de que algumas pessoas realmente votam depois de fazer um balanço racional dos governos anteriores. A risada característica que segue a minha declaração de que o governo da Marta foi sim muito bom para a cidade, prova que estas pessoas infelizmente não são maioria. Pois bem, eu explico a argumentação que se segue em situações como esta.

Bom, a primeira e mais óbvia observação a fazer é que se tem discursos e discursos que são utilizados em campanha. Discursos diferentes “colam” para populações diferentes, assim como políticas públicas diferentes podem ser consideradas boas ou ruins em diferentes classes. O IPTU progressivo, assim como a reforma agrária, clássicos exemplos de políticas públicas essenciais para uma real democracia moderna, são constantemente condenados pela classe dominante – que tem de compartilhar sua terra garantida por tantas gerações ou que tem que pagar um IPTU mais caro. Mas se a classe dominante não é maioria então como o Serra foi eleito? Bem, a classe dominante é dona, literalmente, da mídia de massa (leia-se UOL, Folha, Estadão, Globo, Bandeirantes, e por aí vai). Como já comentei, a campanha política é um instrumento chave de qualquer eleição. A campanha política, não se engane, vai muito além do horário eleitoral gratuito e dos debates na tevê. A campanha é construída no próprio noticiário. Vejamos o exemplo da Marta contra Serra tentando sua reeleição como prefeita.

Na época da eleição, para acompanhar as atividades de campanha de cada candidato, os jornais enviam repórteres. Como cada candidato tem uma extensa agenda, há sempre muito o que noticiar sobre o que andam fazendo. Pois bem. A não ser que o jornal fosse falar exclusivamente disto em todo um caderno, é preciso escolher. Jornais não se fazem sozinhos, são feitos por pessoas que têm opiniões políticas e vivem na mesma cidade onde acontece o processo eleitoral. Pessoas que pertencem a uma classe e acreditam em determinadas idéias. Estas pessoas são contratadas por outras pessoas (os donos da mídia de massa, citados agora há pouco), frequentemente por compartilharem pontos de vista e trabalharem numa mesma linha. No caso mecionado, estas pessoas fizeram a opção, durante a campanha política de Marta Suplicy, de trocar todas as notícias sobre sua plataforma de governo ou atividades de campanha por um só assunto: seu divórcio do senador Eduardo Suplicy.

Em teoria, divórcio não deveria chocar ninguém. Não a esta altura do “championship”, como dizia uma querida professora do departamento de filosofia da Unicamp. Não fossem as escolhas da mídia de massa na forma de noticiar o acontecido, este fato provavelmente não teria tido tanta influência na campanha da ex-prefeita. Ou teria tido menos. Porém, o enfoque dado ao divórcio era o de um grande absurdo, uma verdadeira sacanagem que Marta estaria fazendo com Eduardo (momento descontração = Eduardo & Marta. Rará. Péssimo. #fail Volto ao texto). Pobre senador, tão amado por todos, estava sendo abandonado por esta bruxa horrível que lhe trocara por um argentino bonitão e rico. Como pôde fazer isto com ele? Era simplesmente o fim da picada para muitos. A mídia de massa, reforço, sabe jogar. Jogou aqui com um dos preconceitos mais profundos da sociedade ocidental inteira: o sexismo. O preconceito de gênero. Como poderia Marta ser uma boa prefeita se era uma péssima mulher? (Não que ninguém tivesse sequer se perguntado das qualidades de Eduardo enquanto marido, mas isso é assunto pra outro texto, quem sabe)

Este discurso, então colou.

É claro que o processo eleitoral foi mesmo muito mais complexo que isto. A estratégia de eleição para prefeitura sobre projetos que não tinham sido realizados no governo do Estado do PSDB, também colou. Mas o golpe do divórcio foi fundamental. Além de ser sexóloga de formação – o que para a moral da classe dominante já uma abominação de mulher – Marta tinha se divorciado de um dos senadores mais amados e queridos do Brasil. A repercussão disto na sua imagem continua até hoje  (inclusive depois com seu divórcio do segundo marido, Favre) e, durante as eleições seguintes onde ela concorreu com Kassab (que, lembrem-se, entrou como vice do Serra como qualquer um que entende um mínimo da política deste país já havia previsto na própria eleição do atual governador para prefeito), lembro-me de uma entrevista nas ruas onde uma senhora dizia: “prefiro votar numa bicha nova do que numa puta velha”. Referia-se à escolha (infeliz) de estratégia eleitoral que questionava a vida privada de Kassab. Vale aqui um outro questionamento: por que todos ficaram tão irritados com o preconceito relativo à vida pessoal de Kassab enquanto aplaudiram o preconceito relativo à vida pessoal de Marta?

[Faço aqui parênteses. Leiam o item "Biografia" da entrada de wikipédia de Marta e Kassab. Adivinhem qual é o único onde tem informação sobre casamentos, divórcios, família e relacionamentos? Adivinhou?]

Porque enquanto homem, Kassab é considerado historicamente por nossa sociedade, naturalmente apto para a vida pública. Conseguimos fazer em nossas mentes uma separação clara e repetimos que a vida pessoal não tem nada a ver com a vida pública do candidato. Quando ele é homem. No caso de Marta a vida pessoal parece ter mais importância, já que ela é mulher e nós, mulheres, temos como nosso espaço socialmente designado, a vida privada. Tem uma série de estudiosos e historiadores/as que mostram, por exemplo, como publicar livros era difícil para mulheres como Geroges Sand, que teve que colocar um pseudônimo masculino para ter suas obras lidas e consideradas com um mínimo de respeito na França. E por aí vai, até hoje, quando observamos que homens publicam mais artigos acadêmicos que mulheres, por exemplo.

Outros exemplos interessantes são as críticas dirigidas a Hillary Clinton, nos Estados Unidos. O fato de ser “chifruda” foi mencionado diversas vezes com o teor de crítica política. Nikki Van Der Gaag descreve em seu livro “The non-nonsense guide to women’s rights” fabulosamente este tipo de crítica. A autora cita um artigo que propõe uma inversão adaptando títulos de artigos anti-Hillary como se fossem direcionados a Obama exibindo quão ridículos são estes argumentos, como por exemplo: “Elejam um companheiro frígido” ou “As cuecas de Barack”.

Na carona mais recente que dei, a discussão se atualizou um pouco, para as eleições presidenciais deste ano. Serra, novamente contra uma mulher do PT. Outro dia escrevo mais sobre Dilma e Marina. O que achei mais importante da discussão foi o momento onde surgiu o argumento mais repetido para não se votar na Dilma: “ela é antipática”. E Serra? É praticamente um ursinho carinhoso (¬¬). Mas a questão é: por que uma mulher antipática incomoda tanto assim os eleitores enquanto um homem antipático parece normal? Ainda dentro dos argumentos anti-Dilma: por que quando um homem é autoritário ou tem “gênio forte” ele é um bom governante enquanto uma mulher percebida com as mesmas características não deve levar confiança?

Quem responder certo com argumentos racionais ganha uma mensão honrosa em meu próximo post aqui, no MulheR • AlternAtivA ou no Melhor de Quatro.

A lógica perversa do racismo

No blog do PSDB do Rio Grande do Sul se pode ler esse post intitulado “Arreios à mão, para domar Stela”. O texto aponta o tratamento que deve ser dado a deputada Stela Farias que está a frente da CPI que investiga o governo de Yeda Crusius.  A revista Rolling Stone desse mês traz uma entrevista cuidadosa e bem feita com Marina Silva, entretanto acompanhada de uma charge absolutamente ofensiva: Marina Silva está pendurada em um cipó com o rosto de macaco. Ambos os casos são sexistas, evidentemente. O último, além disso, expõe fortemente uma marca racista. Não vejo razão de Marina Silva ser transfigurada em um macaco. Se a intenção era explicitar sua defesa da Floresta Amazônica, ou era ilustrar o codinome dado a ela por Ziraldo de “doce senadora da floresta”, ou qualquer outro motivo que a vincule a defesa do meio ambiente, a ilustração é muito infeliz. Marina Silva é, evidentemente, negra. Ela se declara assim. Não bastou a palhaçada que envolveu Danilo Gentili ao comparar negro com macaco para parar com essas “piadinhas”. E, é claro, que se pode alegar dezenas de desculpas, dizer que não se pensou nisso, que não foi essa intenção. Mas não importa, é preciso que as pessoas pensem no que estão fazendo, nas interpretações que isso pode ter e deixar dessa bobagem de justificar como brincadeira. E pode chamar de patrulha, de politicamente correta. Está mais do que na hora de colocar os pingos nos is, está mais do que na hora de assumir politicamente o que se faz.

Lacan já disse que o futuro do mundo é o racismo (leia-se também sexismo, homofobia, etc) e que ele traria consigo um autoritarismo desmedido que só poderia acabar em extermínio. Racismo, para Lacan, é não deixar o outro ao seu modo de gozo considerando-o subdesenvolvido. Já Foucault analisa o racismo levado às suas últimas conseqüências. Esse dispositivo que é essencial para a articulação da normalização e da disciplina, faz cortes no interior do contínuo biológico a que se dirige o biopoder. Desse modo, classifica quem deve ou não entrar em uma comunidade através da sua qualificação, ou seja, do cumprimento ou não das estratégias de politização e normalização. Essa forma não guerreira e quase sutil que assume um combate não ao “inimigo político”, mas aos perigos da população identificados através da classificação das raças, revela a aceitabilidade de tirar a vida em uma sociedade de normalização. Se a biopolítica quer garantir seu direito de matar, pois o biopoder se funda na articulação das máximas “deixar viver e fazer morrer” e “fazer viver e deixa morrer”, ela tem que funcionar com os dispositivos do racismo. Assim, o sentido de retirar a vida se expande às mortes contemporâneas que já não ocorrem necessariamente na forma de um assassinato direto, mas também nas suas formas indiretas: a morte política, a expulsão, a rejeição, etc. O problema é que esses assassinatos indiretos, essas formas de desqualificação da vida, expandiram seus tentáculos para além do Estado. Basta pensar na diversão que virou assassinar homossexuais no Brasil. O racismo já não precisa mais da mediação estatal, já não é necessário que o Estado decida quem deve viver e quem deve morrer. Vivemos numa sociedade de controle cujos dispositivos de desqualificação se naturalizaram e se articulam sozinhos.

O sexismo é, portanto, uma forma de biopolítica, de disciplinamento, normalização e controle da vida que toma conta do imaginário social. Daí que não deveríamos nos espantar com a afirmação no blog do PSDB de “domar” a deputada Stela, “ela precisará ser polêmica, carrancuda, ditatorial, para chamar a atenção para si. A base aliada terá de ter determinação e firmeza para domá-la. Ou destituí-la, como concede o Regimento Interno da AL, ao qual ela tanto se agarra para justificar seu autoritarismo”. Essa amostra, junto com a caricatura de Marina Silva, representa a marca do racismo e, consequentemente do sexismo, naturalizado. Uma ânsia de desqualificação do outro travestida de ideologia política ou de ilustração. As coisas não parecem o que são, por trás de “não foi a minha intenção” existe uma lógica de aniquilação do sujeito, uma lógica perversa de extermínio que já não podemos olhar com ingenuidade. A guerra não declarada é a lógica do terror e do controle que, junto com a disseminação do racismo, inviabiliza a identificação do carrasco que, por sua vez, passa a ser confundido com a vítima. Essa zona cinza que nos assombra precisa ser repensada eticamente para que a lógica do desastre deixe de ser a regra.

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