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Dilma, seu vestido e sua família

Quanto mais perto da posse, mais bacacas as manchetes da mídia hegemônica. Passo raiva, até. Primeiro era a Dilma desfilando sozinha – digo eu, no meu post semanal no Blogueiras Feministas: QUE BOM! (leiam aqui).

Agora é “o vestido que Dilma usará na posse é segredo de Estado”.

Francamente, preciso repetir a mesma velha pergunta? Se fosse o Serra ou qualquer homem o terno seria manchete? Vão catar coquinho, pseudo-jornalistas!

Também porque ela é mulher!

Há poucos dias a Cynthia escreveu aqui no blog sobre o tão comum e falacioso argumento “você vai votar numa mulher só porque ela é mulher?” (veja o post aqui). Pretendo com este post acrescentar algumas reflexões sobre o mesmo tema. Por muito tempo minha ‘intuição’ me dizia que havia algum jeito de explicar minha preferência por médicas mulheres, terapeutas mulheres, políticas mulheres. Só não entendia muito bem como e, como tanta gente, me calava diante de tal frase. É importante ressaltar aqui que minha família (núcleo familiar, mais precisamente) é todo de esquerda e as brigas em casa sempre foram entre meu irmão defendendo políticas do Stálin, minha mãe trotskista horrorizada e meu pai, filiado ao PT, sendo chamado de pelego. Um contexto bem particular. No entanto, quando meu feminismo entrava nas discussões, o que sempre voltava era este maldito ‘argumento’: “Uma mulher no poder não é necessariamente bom. Veja o exemplo da Inglaterra ou (mais recentemente, grifo meu) a primeira ministra alemã”.

Devo concordar explicitamente que uma mulher no poder não é necesariamente bom. O problema é ignorar que um homem no poder também não é necessariamente bom. Isso ninguém diz. Muitas historiadoras das mulheres, como a Michelle Perrot, explicam como mesmo dentro de grupos de esquerda a condição de gênero é minimizada para que não ‘atrapalhe’ a ‘causa maior’, que deve ser a ‘causa de classe’. Quando ignoramos a condição de gênero frequentemente apagamos as mulheres, como escrevi recentemente no meu blog (veja o texto aqui).

Após muito matutar sobre o assunto (anos e anos de leituras, universidade, grupos e formações feministas, conversas, blog, debates e afins) tornei muito claro para mim mesma que eu prefiro votar em mulheres, sim. Prefiro médicas mulheres, sim. Prefiro terapeutas mulheres, sim. Prefiro professoras mulheres, sim. Prefiro uma orientadora mulher, sim. E sem vergonha nenhuma. É claro que o currículo da médica conta, a linha que a orientadora segue, a empatia com a terapeuta, o projeto de Estado da candidata política. Mas entre projetos, currículos, empatias e linhas parecidas, prefiro mulheres. Meu primeiro motivo para preferir mulheres é bem simples: foram criadas como mulheres, compartilham alguns dramas e experiências que são muito particulares do nosso gênero (por exemplo sabem que em algum momento da vida poderiam ter tido uma gravidez indesejada – ou tiveram -, drama que não sensibiliza os homens da mesma forma). O segundo é pra realmente reforçar a presença das mulheres em campos onde elas ainda estão em desvantagem (na verdade, segundo a minha pesquisa e outras mais recentes, em praticamente todas as áreas as mulheres têm mais dificuldade de chegar a posições dominantes nas carreiras). Por exemplo, ao preferir uma candidata a deputada federal (em lugar de um homem) estou automaticamente evitando que a minha tentativa de escolher ‘sem considerar o gênero’ na verdade favoreça a manutenção do status quo (= homens na política, mulheres fora da política). Ao preferir uma orientadora, estou reforçando a carreira desta mulher num meio onde poucas mulheres obtém sucesso. Ao preferir uma médica, estou dizendo de certa forma que uma mulher é uma boa profissional num campo que historicamente foi dominado por homens.

É uma militância pessoal, para mim escolher mulheres, votar em mulheres. Se não houvesse nenhuma mulher defendendo projetos políticos do meu interesse, claro, não votaria nelas. Mas como há homens e mulheres nesta situação, voto nas mulheres também por serem mulheres.

Da próxima vez que alguém disser “Você vai votar na Dilma porque ela é mulher?”, responderei de peito cheio: “Vou votar na Dilma também porque ela é mulher”.

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Antipáticas, generalas, militantes, imorais – sobre Marta Suplicy, Dilma Roussef e Hillary Clinton

Quem lê o meu blog e o outro blog de que participo já me conhece e sabe que, periodicamente, dou ou pego caronas através de esquemas bem-bolados da universidade onde fiz a graduação e onde faço mestrado. Pra você que me lê pela primeira vez aqui no “Sexismo na Política”, muito prazer. O fato é que eu constantemente conheço pessoas com quem passo pelo menos uma hora e meia ininterrupta conversando. Duas vezes por semana. Considerando meu desgosto pela irracionalidade no gasto público tanto do governo quanto da prefeitura de São Paulo torna-se quase impossível não tocar no assunto “política” durante estas viagens – afinal de contas, passamos por estradas privatizadas cujo pedágio não cansa de subir e por obras na marginal que privilegiam uma classe social muito específica da nossa configuração de forças políticas no momento. Além disso, o grande sucesso dos esquemas de carona está diretamente ligado a uma falta de investimento e vontade política para o desenvolvimento de alternativas de transporte entre as duas cidades mais importantes do Estado – São Paulo e Campinas. Enquanto estudantes, o preço de R$21 do ônibus (que não nos leva diretamente à Universidade) é abusivo, não há trem, não há política de meia-passagem. Enfim.

Sou formada bacharel em ciências sociais mas, como expliquei outro dia para uma bixete do meu ex-curso, o que define a sua profissão no meio acadêmico é, de fato, o campo de pesquisa. Sendo assim, sou socióloga da educação ou, para os menos íntimos, socióloga. Sim, justamente a profissão de nosso ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Felizmente tenho muita segurança de meus pontos de vista profissionais para não me abalar com piadinhas. Como resultado da minha escolha profissional e da minha formação e militância feministas (na família, na escola, na universidade, na vida), desde o ano passado durante o processo seletivo de mestrado até agora o assunto “eleições 2010” com os eixos transversais de “candidatos” está em pauta nas minhas caronas, sob uma ótica anti-sexista que achei legal compartilhar aqui.

Geralmente o assunto começa com reclamações sobre marginal, enchentes e afins. Declaro meus sonhos secretos (ou nem tanto) de que o Kassab acabe morto com uma flecha de zarabatana envenenada no pescoço ou então de que dependa dos serviços públicos (o que pra ele seria a morte do mesmo jeito). Quando a crítica é lançada (e olha que às vezes nem vem de mim!) a primeiríssima coisa que outros caronistas perguntam é: “em quem votar então?” ou “quem é que foi um bom prefeito então?”, questionamento que vem do maior senso-comum do mundo segundo o qual nenhum-político-presta-então-não-vamos-nos-envolver-com-esta-coisa-suja Já contando com as risadas irônicas desacreditadas afirmo categoricamente: “Marta Suplicy”. Mais risos. E acrescento: “Ninguém nunca em minha vida conseguiu me dar motivos racionais para dizer que ela não foi boa prefeita”. É neste momento que todos se calam porque, óbvio, também não têm argumentos racionais para explicar este outro senso comum, segundo o qual a Marta não foi uma boa prefeita. Com a curiosidade de todos sobre os argumentos racionais que assumo ter para considerá-la uma boa prefeita, então, a conversa segue.

Explico que na gestão da Marta havia coordenadorias especiais que trabalhavam junto a organizações não-governamentais na criação e implementação de políticas públicas (me lembro da de juventude, de negros e negras e das mulheres, mas se não me falha a memória havia outras). Havia o início da implantação de orçamento participativo. Havia representatividade e apoio aos Fóruns dos Direitos da Criança e do Adolescente. Foi organizado um Fórum de Jovens da cidade através de um longo processo o mais democrático possível, pelos próprios jovens que atuavam em organizações que variavam de ONGs a pastorais e grêmios estudantis. Todo o sistema de transporte público foi reformulado, dando diferentes papéis a lotações e ônibus, diferentes rotas, pressionando empresas que antes se impunham ao Estado a servi-lo ao invés de explorá-lo. Trocaram os carros das linhas de ônibus. Implantou-se o bilhete único sem a menor burocracia – duas horas de integração para qualquer um na cidade (e só não se integrou ao metrô porque o PSDB pretendia – e, no fim, conseguiu – eleger Serra para a prefeitura com esta promessa), recarregável em qualquer lotérica. Foram construídos CEUs e pela primeira vez viu-se a prefeitura em SP investir muito dinheiro na educação de quem não tinha nada, educação que ia além de simplesmente abrir uma escola no final de semana (como fazem as escolas do estado) mas que contava com espaço físico e recursos materiais. Material escolar, uniforme e transporte escolar foram assegurados sem custo para os pais. A merenda, muito mais importante do que latas de leite em pó mensais, foi substancialmente melhorada para refeições nutritivas. Vagas em creches foram aumentadas. Investiu-se em paisagismo para que tivéssemos uma cidade bonita (não me venham com discursinhos de palmeiras imperiais os mesmo que depois reclamam que SP é feia e Paris é bonita). Não tanto quanto eu gostaria, mas foram feitas ciclovias além de muitos corredores de ônibus que ainda hoje são os poucos lugares em SP onde ônibus transitam sem entupirem as vias mesmo em dias de manifestação de professores estaduais em greve às sextas-feiras. Criou-se uma política taxativa sobre o lixo com o objetivo de penalizar a produção excessiva já que não há mais aterros sanitários na cidade. Implementou-se o IPTU progressivo. Tudo isto que está devidamente documentado na história da cidade, em apenas quatro anos de governo. Foi um governo com vontade política de melhorar a cidade para todos (ou, pelo menos, para muitos).

Depois desse banho de memória no caronas, certa vez, um deles sabiamente me perguntou: “Se o governo dela foi tão bom, por que então ela não foi reeleita?”. Esta pergunta, vejam bem, caros leitores, assume que as pessoas são eleitas no Brasil pela qualidade do governo. Não tenho a menor dúvida de que algumas pessoas realmente votam depois de fazer um balanço racional dos governos anteriores. A risada característica que segue a minha declaração de que o governo da Marta foi sim muito bom para a cidade, prova que estas pessoas infelizmente não são maioria. Pois bem, eu explico a argumentação que se segue em situações como esta.

Bom, a primeira e mais óbvia observação a fazer é que se tem discursos e discursos que são utilizados em campanha. Discursos diferentes “colam” para populações diferentes, assim como políticas públicas diferentes podem ser consideradas boas ou ruins em diferentes classes. O IPTU progressivo, assim como a reforma agrária, clássicos exemplos de políticas públicas essenciais para uma real democracia moderna, são constantemente condenados pela classe dominante – que tem de compartilhar sua terra garantida por tantas gerações ou que tem que pagar um IPTU mais caro. Mas se a classe dominante não é maioria então como o Serra foi eleito? Bem, a classe dominante é dona, literalmente, da mídia de massa (leia-se UOL, Folha, Estadão, Globo, Bandeirantes, e por aí vai). Como já comentei, a campanha política é um instrumento chave de qualquer eleição. A campanha política, não se engane, vai muito além do horário eleitoral gratuito e dos debates na tevê. A campanha é construída no próprio noticiário. Vejamos o exemplo da Marta contra Serra tentando sua reeleição como prefeita.

Na época da eleição, para acompanhar as atividades de campanha de cada candidato, os jornais enviam repórteres. Como cada candidato tem uma extensa agenda, há sempre muito o que noticiar sobre o que andam fazendo. Pois bem. A não ser que o jornal fosse falar exclusivamente disto em todo um caderno, é preciso escolher. Jornais não se fazem sozinhos, são feitos por pessoas que têm opiniões políticas e vivem na mesma cidade onde acontece o processo eleitoral. Pessoas que pertencem a uma classe e acreditam em determinadas idéias. Estas pessoas são contratadas por outras pessoas (os donos da mídia de massa, citados agora há pouco), frequentemente por compartilharem pontos de vista e trabalharem numa mesma linha. No caso mecionado, estas pessoas fizeram a opção, durante a campanha política de Marta Suplicy, de trocar todas as notícias sobre sua plataforma de governo ou atividades de campanha por um só assunto: seu divórcio do senador Eduardo Suplicy.

Em teoria, divórcio não deveria chocar ninguém. Não a esta altura do “championship”, como dizia uma querida professora do departamento de filosofia da Unicamp. Não fossem as escolhas da mídia de massa na forma de noticiar o acontecido, este fato provavelmente não teria tido tanta influência na campanha da ex-prefeita. Ou teria tido menos. Porém, o enfoque dado ao divórcio era o de um grande absurdo, uma verdadeira sacanagem que Marta estaria fazendo com Eduardo (momento descontração = Eduardo & Marta. Rará. Péssimo. #fail Volto ao texto). Pobre senador, tão amado por todos, estava sendo abandonado por esta bruxa horrível que lhe trocara por um argentino bonitão e rico. Como pôde fazer isto com ele? Era simplesmente o fim da picada para muitos. A mídia de massa, reforço, sabe jogar. Jogou aqui com um dos preconceitos mais profundos da sociedade ocidental inteira: o sexismo. O preconceito de gênero. Como poderia Marta ser uma boa prefeita se era uma péssima mulher? (Não que ninguém tivesse sequer se perguntado das qualidades de Eduardo enquanto marido, mas isso é assunto pra outro texto, quem sabe)

Este discurso, então colou.

É claro que o processo eleitoral foi mesmo muito mais complexo que isto. A estratégia de eleição para prefeitura sobre projetos que não tinham sido realizados no governo do Estado do PSDB, também colou. Mas o golpe do divórcio foi fundamental. Além de ser sexóloga de formação – o que para a moral da classe dominante já uma abominação de mulher – Marta tinha se divorciado de um dos senadores mais amados e queridos do Brasil. A repercussão disto na sua imagem continua até hoje  (inclusive depois com seu divórcio do segundo marido, Favre) e, durante as eleições seguintes onde ela concorreu com Kassab (que, lembrem-se, entrou como vice do Serra como qualquer um que entende um mínimo da política deste país já havia previsto na própria eleição do atual governador para prefeito), lembro-me de uma entrevista nas ruas onde uma senhora dizia: “prefiro votar numa bicha nova do que numa puta velha”. Referia-se à escolha (infeliz) de estratégia eleitoral que questionava a vida privada de Kassab. Vale aqui um outro questionamento: por que todos ficaram tão irritados com o preconceito relativo à vida pessoal de Kassab enquanto aplaudiram o preconceito relativo à vida pessoal de Marta?

[Faço aqui parênteses. Leiam o item "Biografia" da entrada de wikipédia de Marta e Kassab. Adivinhem qual é o único onde tem informação sobre casamentos, divórcios, família e relacionamentos? Adivinhou?]

Porque enquanto homem, Kassab é considerado historicamente por nossa sociedade, naturalmente apto para a vida pública. Conseguimos fazer em nossas mentes uma separação clara e repetimos que a vida pessoal não tem nada a ver com a vida pública do candidato. Quando ele é homem. No caso de Marta a vida pessoal parece ter mais importância, já que ela é mulher e nós, mulheres, temos como nosso espaço socialmente designado, a vida privada. Tem uma série de estudiosos e historiadores/as que mostram, por exemplo, como publicar livros era difícil para mulheres como Geroges Sand, que teve que colocar um pseudônimo masculino para ter suas obras lidas e consideradas com um mínimo de respeito na França. E por aí vai, até hoje, quando observamos que homens publicam mais artigos acadêmicos que mulheres, por exemplo.

Outros exemplos interessantes são as críticas dirigidas a Hillary Clinton, nos Estados Unidos. O fato de ser “chifruda” foi mencionado diversas vezes com o teor de crítica política. Nikki Van Der Gaag descreve em seu livro “The non-nonsense guide to women’s rights” fabulosamente este tipo de crítica. A autora cita um artigo que propõe uma inversão adaptando títulos de artigos anti-Hillary como se fossem direcionados a Obama exibindo quão ridículos são estes argumentos, como por exemplo: “Elejam um companheiro frígido” ou “As cuecas de Barack”.

Na carona mais recente que dei, a discussão se atualizou um pouco, para as eleições presidenciais deste ano. Serra, novamente contra uma mulher do PT. Outro dia escrevo mais sobre Dilma e Marina. O que achei mais importante da discussão foi o momento onde surgiu o argumento mais repetido para não se votar na Dilma: “ela é antipática”. E Serra? É praticamente um ursinho carinhoso (¬¬). Mas a questão é: por que uma mulher antipática incomoda tanto assim os eleitores enquanto um homem antipático parece normal? Ainda dentro dos argumentos anti-Dilma: por que quando um homem é autoritário ou tem “gênio forte” ele é um bom governante enquanto uma mulher percebida com as mesmas características não deve levar confiança?

Quem responder certo com argumentos racionais ganha uma mensão honrosa em meu próximo post aqui, no MulheR • AlternAtivA ou no Melhor de Quatro.

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