Posturas machistas e o debate da Band
A Heloísa Vianna fez uma série de tweets sobre o debate na Band que merecem destaque:
15 tweets sobre o debate de ontem:
1. quem não vota na Dilma por não conhecê-la, devia ter visto o debate, mesmo que fosse pra continuar não votando.
2. e eu que achava que conhecia José Serra, só tive confirmações…
3. Serra não respondeu sobre estratégias sujas da sub-campanha de seu vice Índio da Costa.
4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.
6. Serra não respondeu sobre Paulo Preto, assessor de sua campanha que fugiu com 4 milhões.
7. Serra se enrolou tentando incorporar o falso papel de estatizador (é sério!)
8. Serra terminou o debate implorando votos e oferecendo em troca sua biografia. de novo. melancólico.
9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…
10. Dilma cobra respostas, Serra não responde, mente e ainda sai “mimimizando” pela a agressividade da adversária.
11. a campanha tucana atacou baixo até agora. quando questionada sobre sua baixeza, tergiversou (“tergiversa” foi a palavra da noite).
12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.
15. as pessoas acham que falar “presidenta” é feio, motivo de piada, apesar de estar no dicionário. por que será, né?!
Alguns comentários aos itens:
4. Serra não respondeu sobre sua mulher Monica Serra ter dito a evangélicos que Dilma é a favor de matar criancinhas.
5. atenção: nenhuma palavra a favor da esposa e nenhuma palavra a favor do vice.
O que tem me impressionado na eleição é que José Serra chamou sua família – toda composta por pessoas adultas, capazes e responsáveis – para participar da campanha política, utilizando-a como arma de campanha. E agora que estão sendo feitas as críticas pelo que sua família, especialmente a esposa, anda falando e fazendo em nome da campanha, ele se faz de ofendido, como se a privacidade dos familiares tivesse sido invadida.
Trata-se não só de uma confusão: não estão sendo discutidas questões privadas de sua família. Estão sendo questionadas afirmações públicas ligadas à campanha eleitoral.
Particularmente, não acho que José Serra, em um debate, deva defender a esposa – por ela ser sua esposa. Ela está na campanha por vontade própria, é adulta, capaz, totalmente responsável por suas declarações, e sabe muito bem se defender sozinha (mesmo que seja fazendo de conta que não se lembra de suas afirmações).
Porém, o candidato José Serra tem a obrigação de se posicionar sobre o que as pessoas de sua campanha estão dizendo em seu nome. Se a campanha divulga informações inexatas, ou estimula intrigas e baixarias, e ele é questionado sobre isso, sua obrigação é se posicionar, seja negando as críticas, seja defendendo os participantes da campanha; se for o caso, deve se prontificar a tomar providências. De outra forma, fica parecendo que ele é incapaz de traçar as diretrizes da própria campanha, estimulando a divulgação de informações contraditórias e controvérsias.
9. daí, tucanos e jornalistas desconcertados com uma mulher que se coloca e vai pra cima, chamam Dilma de agressiva, hahaha…
O modelo tradicional de feminilidade (leia-se: machista) exige que mulheres fiquem em segundo plano e ouçam besteiras caladas. Ou, no máximo, que respondam delicadamente, sem ofender o interlocutor, mesmo que ele esteja dizendo as maiores tolices do mundo.
Na vida real, tanto homens quanto mulheres têm personalidades diferentes. Só que aos homens é dada a possibilidade da diversidade. Aceita-se, por exemplo, que Lula seja mais conciliador, que Ciro Gomes seja mais agressivo e sem papas na língua, ou que José Serra sempre se irrite com jornalistas.
Já as mulheres são condenadas ao modelo único machista: se não forem delicadas e submissas, são consideradas agressivas demais. Fica nítido o machismo em seu estado mais puro.
Nesse sentido, é interessante ler o post do Celso Barros observando que os jornalistas homens reagiram muito mal à postura da Dilma Rousseff no debate; jornalistas mulheres foram mais ponderadas. Desconfio que isso aconteceu porque elas sabem muito bem a dificuldade de fugir desse estereótipo de ficar em segundo plano e fingir delicadeza pra não sofrer sanções sociais nem profissionais por conta de uma pseudo-agressividade.
12. e, atenção, mulheres, pensem nisso: o machismo da campanha ficou mais explícito do que nunca.
13. Serra zombou da postura firme de Dilma, chamando-a de “treinada”, tentando desqualificá-la.
14. ou seja: homem que se coloca é assertivo e enfático. mulher que se coloca é agressiva e raivosa.
Na visão machista, mulher é considerada um fantoche e incapaz de pensar por conta própria. Tem de ser muda, ficar em segundo plano. Se tem opiniões próprias, é tratada ou como uma anormal ou como uma pessoa “treinada” por outras. Se suas opiniões são fortes e ela não concorda em ficar em segundo plano, é considerada agressiva, raivosa ou deslocada de função.
Tudo isso é machismo, pois reflete a incapacidade de considerar a mulher como um ser pensante, com vida e opinião próprias, e capacidade plena de expressar suas ideias.
Na minha opinião, a mais machista de todas as falas do Serra foi ter chamado Dilma de “treinada”. Deixa implícito que sem o adestramento de um homem – pois é evidente que é Lula quem a teria “treinado” – ela não teria condições de debater com o “macho adulto branco sempre no comando” que é como Serra vê a si mesmo.
Somada à fala sobre agressividade, resulta numa visão da mulher como um ser indefeso, incapaz de articulação e desprovido da habilidade – e do direito – de debater de igual para igual com um homem.