Uma charge infeliz
Outro dia o Nani publicou a charge ao lado no blog do Josias. Em seu blog, apressou-se a confundir críticas com censura e publicar também uma série de charges em contexto semelhante, tendo como personagem Fernando Henrique Cardoso (FHC).
Não é de hoje que o jogo político significa negociações e trocas de apoios. Todos negociam, pois trata-se de sobrevivência na arena política. Opositores criticam as negociações dos concorrentes (enquanto encobrem as próprias) associando-as a um ato de compra e venda, associado à prostituição, no qual se troca valores éticos por apoiadores. Essa é a síntese das charges, ou pelo menos seria, se não houve uma questão de gênero envolvida.
Valores éticos estão associados à honra que, em sociedades machistas, como a nossa, tem conteúdo diferente para homens e mulheres. O homem tem de aparentar ser heterossexual, bom pai, bom marido, bom profissional, ter uma vida respeitável, livre de escândalos públicos. Segundo José Serra, pode-se até ter amantes, desde que seja de forma discreta. E mesmo um escândalo não irá abalar tanto a reputação do homem, pois a aparência de “homem de bem” pode ser recuperada através de uma boa atuação em outra área (para um escândalo profissional, destaca-se a vida familiar perfeita; para escândalo conjugal, reafirma-se o direito à privacidade e valoriza-se a área profissional).
Já a honra da honra da mulher se resume a um hímen intacto ou à vida sexual ostensivamente monogâmica. Não basta aparentar ser virgem ou fiel ao marido até a morte, a vida delas é esmiuçada para verificar se realmente são o que aparentam ser; se não o forem, o “erro” sexual contamina as outras áreas de sua vida, tornando-as indignas de respeito inclusive em áreas que não têm relação com sexualidade, como a vida profissional.
Nessa perspectiva, mulheres que pautam sua vida sexual por outros valores, não se importando com essa lógica opressiva, são consideradas desonradas por sua essência. E se elas optarem por trocar relações sexuais por dinheiro, como fazem as prostitutas, são consideradas pessoas de pouco respeito, à margem da sociedade, pois sexo deveria ser algo sagrado. É nítida a influência religiosa aqui, punindo a mulher tanto pela vida sexual fora do casamento (que é permitida e até endossada para os homens, como fica nítida na fala de Serra) quanto pelo fato de desejar dinheiro (que é algo considerado pecaminoso para algumas religiões, e associado ao poder masculino).
Portanto, não é a mesma coisa fazer uma charge com a mesma situação, só trocando o sexo dos personagens. A carga de preconceito não é a mesma, o simbolismo trazido por cada uma delas é bem diferente. Enquanto a charge com FHC indica que ele está deixando de lado a aparência de homem sério (mas que pode ser recuperada), a charge com Dilma está carregada de todos os piores valores de nossa sociedade a respeito de honra da mulher; com isso, acaba não só por questionar a idoneidade da vida privada e pública da candidata Dilma Rousseff, mas também contribui para marginalizar as mulheres, acrescentando empecilhos e julgamentos de valor que dificultam sua vida na arena política.
Leiam também:
- Nota de Repúdio à charge do cartunista Nani reproduzida no blog do jornalista Josias de Sousa
- Zombaria como arma antifeminista: instrumento conservador entre libertários é um artigo da Rachel Soihet analisando como os humoristas, especialmente os do Pasquim (do qual Nani fez parte) usavam o humor pra criticar a ascensão do feminismo no Brasil na década de 60
- Humor e preconceito, post meu sobre o quanto o humor pode ser conservador e prejudicial às minorias
Oi, Cynthia! Eu tb escrevi sobre a charge do Nani: http://escrevalolaescreva.blogspot.com/2010/07/toda-mulher-e-prostituta-dilma-e-mulher.html
Lamentável.
Perfeito. É como querer igualar chamar um negro de negro e um branco de branquela.
Desprezível, nojento.
Cynthia, gostei muito do blog, voltarei mais vezes.
Bom texto, crítica belíssima.
Até mais.