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Por que votar em mulheres?

Em 2007, assisti a um debate interessantíssimo durante o 1º Seminário Internacional Política e Feminismo organizado pelo Nepem-UFMG. Três mineiras foram convidadas a contar sua experiência na área política, e uma especialista em seguida alinhavou a fala delas com as teorias sobre gênero e representação política.

Não tenho acesso agora às minhas anotações do evento, mas lembro bem que estavam na mesa mulheres de esquerda, direita e centro. A de direita havia entrado para a política depois de criar os filhos, e se tornou prefeita de sua cidade. A de centro estava no primeiro mandato como vereadora. A de esquerda militava há mais tempo, tinha experiência como ex-prefeita e deputada (não lembro mais se federal ou estadual).

Com as diferenças de experiência política, idade e ideologia, era de se esperar que os discursos delas fossem completamente diferentes. O que surpreendeu foi ver que os relatos eram muito parecidos.

Todas falaram das dificuldades, da oposição da família, do descrédito e falta de apoio inclusive do próprio partido, do preconceito, da necessidade de dar atenção aos filhos enquanto trabalhavam, e até da quebra de protocolo em diversas ocasiões. Um exemplo foi o de encontros de prefeitos para discutir políticas em conjunto: nessas situações há uma equipe para recepcionar as primeiras-damas e levá-las para conhecer a região e fazer compras; mas o que fazer quando a mulher é a prefeita e quem está ali para o programa turismo-shopping é o marido dela, que não está minimamente interessado no tour?

Ficou claro que, por mais que existam diferenças ideológicas, a situação das mulheres na política é semelhante, e há mais pontos em comum do que divergentes.

No entanto, muitas pessoas acreditam que não é necessário termos mulheres na política, como se os homens fossem suficientes para resolver problemas relacionados às mulheres. Trata-se de um engano: enquanto os homens dominaram a política, as mulheres foram colocadas como subalternas e legalmente submetidas ao poder masculino (sem direito a voto, sem capacidade civil, sem poder gerir suas vidas e seus bens). Até começarem a se rebelar, com os movimentos socialistas e sufragistas, as mulheres não podiam ter participação política.

Ainda hoje nós, mulheres, temos representação ínfima e pouco poder político para resolver questões que atingem mais mulheres do que homens (ou vocês acham que, para ficar em um exemplo apenas, os homens, com sua tradição de negação da paternidade, conseguem dar valor a creches em regiões vulneráveis ou distribuição regular de contraceptivos?)

É por isso que, quando me perguntam por que deveríamos votar em mulheres, eu digo que é pra corrigir uma desigualdade. Somos mais de 50% da população, mas em cargos eletivos nossa média é inferior a 10%.

Mais participação política feminina significa mais problemas que atingem as mulheres sendo discutidos, com perspectivas de solução efetiva. E incentiva mais mulheres a se candidatarem, e melhorarem a condição de vida das demais mulheres. Não há como, mudando a vida de 50% da população, não melhorar a sociedade.

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  1. 18/04/2010 às 22:20 | #1

    A história da humanidade é a história da supremacia masculina, em termos de voz e atividade. O feminismo começou como uma luta por igualdades. Hoje, pela constituição, as mulheres são iguais aos homens. Se a luta for por direitos em relação as peculiaridades femininas – paternidade, etc. Também é uma luta vencida, ora. Pensão, pílula do dia seguinte, etc., etc.

    Agora dizer que as mulheres devem ser eleitas para defender o direito feminino é um discurso perverso. Perverso na medida que se assemelha com a frente evangélica, e outras articulações monotemática que torna nossa democracia uma guerra de facções.

    • Cynthia Semíramis
      19/04/2010 às 06:15 | #2

      André HP, só para ficar nos seus dois exemplos: a pensão é para os filhos, e os homens sistematicamente se recusam a pagá-la; várias Câmaras Municipais aprovaram leis proibindo a distribuição de pílula do dia seguinte e/ou demais contraceptivos. Não é luta vencida, ainda falta um longo caminho. Seu discurso é que me parece perverso, pois são o que você chama de facção (grupos de interesse seria um termo bem melhor) que trazem discussões e conquistas mais específicas, sobre direitos de grupos que tradicionalmente foram marginalizados pelo poder masculino, branco, rico/classe média…

      Apenas para deixar claro: há muita diferença entre um discurso religioso (seja católico, evangélico, espírita, etc) e o discurso pelo direito das mulheres: a religião quer se impor a quem não a professa, deixando de lado os princípios do Estado laico; as mulheres só querem garantir igualdade, não só jurídica, mas no cotidiano.

  2. 19/04/2010 às 13:11 | #3

    Eu acho bem importante que na plataforma política do candidato esteja essa preocupação com os direitos da mulher. Ficaria bem feliz que uma mulher fosse presidente do Brasil. Contanto que esteja alinhada com isso né? Não adianta nada uma Marina Silva, por exemplo, que é contra a descriminalização do aborto. Dai prefiro um homem que não seja. Precisamos de reprentações, mas precisamos de atitudes concretas também.

  3. 19/04/2010 às 18:04 | #4

    Mesmo com esse “longo caminho” que fala, o que te garante as mulheres eleitas pautariam tais direitos? Porque um homem não poderia fazê-lo? A briga é por direitos ou por mais mulheres na política?

    Vejo um certo sexismo no seu discurso.

    E a igualdade no cotidiano é uma construção sócio-cultural. É o caso dos homossexuais, afro-descendentes, etc.

  4. Amanda Vieira
    05/05/2010 às 19:04 | #5

    Olá mulheres! Peço que vocês comentem essa matéria aqui da Folha: http://www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u730412.shtml. O @tuliovianna pergunta quando é que a Folha vai fazer matéria do tipo sobre os ternos do Serra.

  5. 23/05/2010 às 11:33 | #6

    Concordo com a sua posição e digo mais, hoje é tão importante a participação activa das mulheres na vida política como foi no passado a luta pelo sufrágio feminino. Claro que algumas mulheres que têm acesso ao universo político parecem muitas vezes ser apenas a «voz do dono» e assumem atitudes que não favorecem a luta contra circunstâncias opressoras que ainda existem mesmo nas sociedades mais evoluidas, mas essa é uma outra questão; de resto também há homens e já são bastantes que lutam pela igualdade de direitos não apenas formal mas também no plano dos factos e do quotidiano, todavia devo dizer que a maior parte, mesmo quando bem intencionada, não é sensível às dificuldades que as mulheres encontram para se afirmarem, o que até é compreensível porque as dificuldades são delas, embora se repercutam na vida social, como não pode deixar de ser.
    As coisas tem de ser contextualizadas: a briga é por mais direitos, não por mais mulheres na política mas é logico esperar que ela só será bem sucedida se houver mais mulheres na política. De resto o argumento do André é muito parecido com o que era utilizado nos fins do século XIX e princípios do século XX por homens e mesmo por mulheres que eram contra o sufrágio feminino, e que diziam precisamente que os homens eleitos, sendo competentes e honestos, representavam bem os interesses da sociedade e, portanto, também das mulheres. Não sei o que teria acontecido se a posição desses homens e dessas mulheres tivesse vingado, mas presumo que provavelmente o André estaria a dialogar com homens e não com mulheres, como é o caso.

  6. Ana
    08/06/2010 às 00:37 | #7

    André, sexismo no discurso? Não subverta as palavras da Cynthia. Chamar a atenção para a necessidade de tratar desigualmente as desiguais, ou seja, desenvolver políticas públicas que favoreçam as mulheres, historicamente subjugadas, não é sexismo.

    A questão sobre a concretização da cidadania e seus direitos para as mulheres não pertence simplesmente à esfera da representação de interesses das mulheres, mas da representação da vivência desse grupo. Homens podem ter opinião, partilhar um interesse que se refira às mulheres, mas jamais sentirão na pele a opressão/dominação de gênero. Homens não vivem o cotidiano da ameaça constante de estupro, não costumam se envolver como as mulheres na educação das crianças, não costumam realizar tarefas domésticas, não engravidam nem abortam, não amamentam, seu grupo não é visto como racionalmente incapaz, tampouco como pertencente ao ramo das futilidades. O coletivo de mulheres sofre com estas questões desde a sua mais básica socialização. O olhar masculino, seu viés, é incapaz de se assemelhar à experiência feminina, porque não viveu e não viverá como mulher.

    Na questão da representação política não se diz que 91% da Câmara dos Deputados (sic), por exemplo, representa apenas interesses masculinos. É verdade, os 91% de deputados poderiam representar interesses femininos. O impossível, no entanto, é representar as perspectivas das mulheres, o seu olhar marcado pelas suas experiências de vida como mulheres. Excluir as perspectivas femininas (assim como as perspectivas de outros grupos sub-representados) é golpear a possibilidade de democratização do nosso país.

    Sobre a eleição presidencial, não acho que seja o ponto mais central dessa questão, apesar de ter mais notoriedade. Se o poder popular reside no Congresso Nacional, é ali que essa questão deveria ser ter mais relevância – o que não significa que o ínfimo número de prefeitas e governadoras não seja um dado importante.

  7. 07/08/2010 às 23:29 | #8

    Gostei do post, interessantissimo e concordo plenamente com tuas palavras.

    abs

  8. Gisela
    11/08/2010 às 17:25 | #9

    A política é dominada por homens, isso é fato! E levará anos para as mulheres conquistarem o seu lugar. O principal motivo é que para uma mulher votar em outra (essa é a principal questão, se as mulheres votassem nas mulheres, pois somos 50% da população, não é) é complicado e muito subjetivo. Mulheres não analisam as propostas, mas sim a roupa que a outra está vestindo, se tem estilo, se é eloquente, se foi na manicuri, se tirou a sombrancelha. etc.
    Esse é o problema! As mulheres são umas retardadas entre si. A vaidade feminina é instigada quotidianamente pela indústria da moda, o que gera opiniões obsoletas e mentes ignorantes. O que diabos importa se a candidata Marina estava linda ontem no Jornal Nacional? Hoje fiquei estupefata com esse insensato comentário! Enquanto as mulheres continuarem dando mais valor a marca de cosméticos que a atriz usa e esquecerem que sem incentivo fiscal a empresa que o fabrica pode falir, não haverá uma delas no poder, como chefe do executivo.
    ACORDEM! A futilidade está matando todo o nosso potencial! Eu sou mulher e detesto ouvir uma mulher comentando sobre o estilo da candidata ao invés de suas proposta! Cadê a inteligência feminina? Obscurecida pelo materialismo fugaz? Tenho fé que não.

    • Cynthia Semíramis
      12/08/2010 às 19:24 | #10

      Gisela, temos é de incentivar mais mulheres a discutir política. Enquanto educarmos as meninas apenas para ficarem bonitas, o olhar delas ficará direcionado somente para estética, e não para propostas políticas que mudarão suas vidas pra melhor ou pra pior.

  1. 01/05/2010 às 21:36 | #1
  2. 07/10/2010 às 15:16 | #2

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