Um gordo pode ser presidente? E uma gorda?
Este é um post curtinho, com indicação de leitura, apenas para ensaiar a volta ao blog. Não é segredo pra ninguém que estou com tantas atividades profissionais e acadêmicas que está difícil encontrar tempo para atualizar os blogs. E creio que esta é a mesma situação das demais colaboradoras. Mas com certeza o blog terá atualizaçãos mais frequentes neste ano.
A Nalu divulgou no Twitter que, na revista Época, a coluna da Cristiane Segatto comenta uma pesquisa interessante envolvendo política e candidatos e candidatas com sobrepeso. A pesquisadora Beth J. Miller apresentou fotos (tanto reais quanto manipuladas para engordar) de homens e mulheres supostamente candidatos a cargos políticos, e pediu a análise das pessoas pesquisadas inclusive em relação à aparência. Os resultados são nitidamente sexistas:
Os candidatos com a mesma posição política receberam notas diferentes de acordo com o sexo e o grau de obesidade. As mulheres obesas receberam as piores notas. Na opinião dos avaliadores, elas parecem ter menos capacidade de liderança do que as magras.
Entre os homens, o resultado foi inverso. Os rechonchudos conquistaram a confiança de mais eleitores que os magrinhos.
Não deixe de ler a coluna, na íntegra, que traz também uma mini-entrevista com a pesquisadora aprofundando a questão.
assinem o Manifesto em defesa da liberdade e da autonomia das mulheres
NÃO À VOLTA DA INQUISIÇÃO
Mulheres do mundo inteiro lutam há milênios contra as opressões a que foram e continuam sendo submetidas.
Contra a inquisição elas não se calaram e, mesmo sob torturas e mortes, lutaram pelo direito à liberdade. Lutaram por igualdade/liberdade/fraternidade na Revolução Francesa e escreveram a 1ª Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã e, mesmo tendo como resposta a esta luta a condenação à guilhotina, não pararam de lutar.
Conquistaram os direitos civis com as lutas sufragistas, direitos trabalhistas, cidadania e o das últimas décadas do século XIX em diante,
acrescentaram o direito de decidir e a autonomia sobre o próprio corpo nas lutas cotidianas.
Nós brasileiras, nos somamos às mulheres do mundo todo, lutando contra a escravidão, contra diferentes ditaduras e tantas outras formas
de opressão. Consolidamos direitos iguais como cidadãs e cidadãos na Constituição Federal de 1988, entre eles o direito de ir e vir para todas as pessoas que vivem neste país, independente de orientação sexual, idade, raça/etnia.
A erradicação de toda forma de violência e discriminação contra as mulheres é um compromisso firmado pelo Estado brasileiro em diferentes tratados internacionais de direitos humanos, como: a Convenção Interamericana para Prevenir, Punir, e Erradicar a Violência contra a Mulher, da OEA (Convenção de Belém do Pará) e da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), da ONU, e em leis nacionais como a Constituição Cidadã e a Lei 11.340/2006 – Lei Maria da Penha. E é uma das prioridades nas ações do governo, por meio do Plano Nacional de Políticas para as Mulheres, assumidos pelo Estado de São Paulo e pelos municípios da Região do Grande ABC.
Num Estado de Direito como o nosso, constituído e baseado nos princípios da democracia e do respeito à liberdade e igualdade de mulheres e homens, independente de pertencer a qualquer raça, cor, credo, orientação sexual ou idade; não podemos admitir que atitudes como a das e dos alunos/as da Universidade Bandeirantes (UNIBAN), que no dia 22/10/2009 discriminaram e ofenderam Geysi Arruda, aconteçam de forma impune.
Manifestamos nossa total indignação à violência sofrida pela aluna Geysi Arruda e pelo cerceamento da sua liberdade e exigimos que sejam tomadas todas as medidas no sentido de apurar as responsabilidades por tais atos e que as pessoas envolvidas respondam perante as instâncias cabíveis.
Apelamos para que a UNIBAN promova atividades de esclarecimentos e reflexão sobre direitos humanos e respeito à autonomia das mulheres, como formas de contribuir para a garantia da igualdade entre as pessoas, sem nenhuma forma de discriminação.
Continuaremos lutando sem deixar retroceder nem um milímetro das nossas conquistas, em especial a nossa autonomia.
São Bernardo do Campo, 03 de setembro de 2009.
FRENTE REGIONAL DE COMBATE À VIOLÊNCIA GRANDE ABC PAULISTA E REGIÃO
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Fátima Oliveira: “As disponíveis na praça são todas mulheres difíceis”
As presidenciáveis e seus problemas: deixa o trem arder
FÁTIMA OLIVEIRA
Médica – fatimaoliveira@ig.com.brO título é inspirado num livro que li em meu tempo de Colégio Colinense: “A Moça e seus Problemas” (Haroldo Shryock). Era leitura compulsória para “as meninas da Casa do Estudante”. Datado de 1954, é uma lavagem cerebral contra os prazeres do parque de diversão que é o nosso corpo. Odiei. Desde sempre, curto estados de paixão, ao contrário das moças de fino trato. Pula!
As presidenciáveis da praça são, todas, mulheres difíceis – que mandam em suas vidas. Gosto! “Pero”, estou de tocaia. Matutando. Há homens amigos das mulheres e mulheres inimigas das mulheres. É assuntar. Deixei de votar em quem criminaliza o aborto e em quem fica em cima do muro, tucanamente, como Lula, em quem sempre votei. Nada mais plumagem de tucano do que Lula no tema aborto. Dá uma no cravo e outra na ferradura. Enchi, mas é o melhor governo da República. Fecha!
Já disse: “Outros temas polêmicos para uns e malditos para outros, que considero relevantes para o debate eleitoral, são: questões pertinentes à plena cidadania de gays, lésbicas e travestis; políticas de ação afirmativa e nelas, as cotas étnicas; e a legalização do aborto, inserida numa perspectiva de justiça social e de ampliação da democracia num Estado laico”. (Contra a vida das mulheres, 4.9.2006). Vou por aí. Valorizo muito meu voto.
E os problemas das presidenciáveis? Todas no fundo do poço da falta de carisma (“dom da graça”). Nenhuma dotada de soft power, o mesmo que chamávamos de élan: aquele apelo de algo mais que enternece e convence as massas – que Lula e Obama têm de sobra. O ar de vestal não basta. Rapapé de Maria Bonita também não. E a honradez, embora indispensável, sozinha não carreia votos.
Heloísa Helena? Ignoro. Não gasto latim com quem desde sempre é contra as mulheres. Marina Silva? Desabrocha como a salvação da lavoura. Erro crasso. Vamos dar a Marina o que é de Marina. Ambientalista reconhecida; senadora mediana; ministra de conveniência (para o governo) e tão-somente inodora na queda de braço dos transgênicos. Deveria ter deixado o governo naquele momento. Por que ficou?
Para uma amiga comum, vê-la apenas criacionista e fundamentalista é pouco para quem “no ministério criou uma sala de oração (será?! Incredulidade minha). Mais um exemplo de misturar o público com o privado. Vai pegar na onda do Obama”. O mérito dela é ter sacudido o debate eleitoral, não pela esperada religiosidade ambientalista, e sim por ter assumido, enfim, que é negra! Obama explica. É o “se colar, colou”.
Dilma Rousseff? Ungida por Lula, em seu estilo arisco a la Maria Moura, agora amaciado pela doença (não há mal que não traga um bem!), cultiva o abominável hábito de “A” tesoura do mundo (apostila da Socila faz falta!), vem embalada no nacionalismo do pré-sal, na proa do discurso desenvolvimentista com os paetês do bem-estar social (Bolsa Família, que defendo) e uma tintura ecológica de último segundo (no horizonte um PAC ambiental – não há mal que não traga um bem!). Nada perto do “Pensar global e agir local”. Um mérito: não escorrega na defesa dos direitos das mulheres.
Minha maior dificuldade com ela: a postura imperial no episódio ministra Matilde Ribeiro. Num tribunal, igual à Santa Inquisição, crucificou a negra! Porém convive, sem dar um pio, com célebres correligionários sabidamente sociopatas e não ousou abater nenhum em voo. Qual é a dela? E haja PAC para sanear o mangue de mágoas. Deixa o trem arder… Quem sabe das cinzas emergirá uma fênix! Aguardo a fênix.
Publicado em: 15/09/2009, Jornal O Tempo
Cankles: seu corpo é imperfeito; logo, você não tem capacidade política
Quando vi o post sobre cankles no Época7×7, fiquei impressionada. Não sabia o que eram cankles, e sequer imaginava que esse foi um assunto discutido na disputa da eleição presidencial nos Estados Unidos em 2008.
Cankles são tornozelos grossos, que se emendam com as pernas. Em uma sociedade que exige que os corpos das mulheres sejam perfeitos no todo e por partes, as pernas e tornozelos foram incluídos na lista de “consertos” a serem feitos para se ter a aparência feminina perfeita. E assim, existem exercícios, dietas e até cirurgia de lipoaspiração para as mulheres obterem tornozelos fininhos, “perfeitos”, que se destaquem da panturrilha.
O formato do tornozelo feminino foi usado para criticar tanto Sarah Palin (candidata republicana à vice-presidência dos EUA) quanto Hillary Clinton (pré-candidata democrata à presidência dos EUA), retomando uma idéia antiga – e extremamente sexista – de que a capacidade das mulheres na política (e em qualquer área da vida) está diretamente ligada à sua aparência. Neste vídeo, o rapaz teve a coragem de dizer que não é para votar em Hillary Clinton porque ela tem cankles e usa calças compridas para disfarçar esse “defeito” na aparência.
No fim das contas, trata-se de mais uma pressão para coagir mulheres a se adequarem a um ideal bizarro de beleza, e só depois que cumprirem sua “missão” estética, receberem autorização dos sexistas de plantão para discutir injustiças, lutar por modificações no cotidiano e seguir carreira política.
A lógica perversa do racismo
No blog do PSDB do Rio Grande do Sul se pode ler esse post intitulado “Arreios à mão, para domar Stela”. O texto aponta o tratamento que deve ser dado a deputada Stela Farias que está a frente da CPI que investiga o governo de Yeda Crusius. A revista Rolling Stone desse mês traz uma entrevista cuidadosa e bem feita com Marina Silva, entretanto acompanhada de uma charge absolutamente ofensiva: Marina Silva está pendurada em um cipó com o rosto de macaco. Ambos os casos são sexistas, evidentemente. O último, além disso, expõe fortemente uma marca racista. Não vejo razão de Marina Silva ser transfigurada em um macaco. Se a intenção era explicitar sua defesa da Floresta Amazônica, ou era ilustrar o codinome dado a ela por Ziraldo de “doce senadora da floresta”, ou qualquer outro motivo que a vincule a defesa do meio ambiente, a ilustração é muito infeliz. Marina Silva é, evidentemente, negra. Ela se declara assim. Não bastou a palhaçada que envolveu Danilo Gentili ao comparar negro com macaco para parar com essas “piadinhas”. E, é claro, que se pode alegar dezenas de desculpas, dizer que não se pensou nisso, que não foi essa intenção. Mas não importa, é preciso que as pessoas pensem no que estão fazendo, nas interpretações que isso pode ter e deixar dessa bobagem de justificar como brincadeira. E pode chamar de patrulha, de politicamente correta. Está mais do que na hora de colocar os pingos nos is, está mais do que na hora de assumir politicamente o que se faz.
Lacan já disse que o futuro do mundo é o racismo (leia-se também sexismo, homofobia, etc) e que ele traria consigo um autoritarismo desmedido que só poderia acabar em extermínio. Racismo, para Lacan, é não deixar o outro ao seu modo de gozo considerando-o subdesenvolvido. Já Foucault analisa o racismo levado às suas últimas conseqüências. Esse dispositivo que é essencial para a articulação da normalização e da disciplina, faz cortes no interior do contínuo biológico a que se dirige o biopoder. Desse modo, classifica quem deve ou não entrar em uma comunidade através da sua qualificação, ou seja, do cumprimento ou não das estratégias de politização e normalização. Essa forma não guerreira e quase sutil que assume um combate não ao “inimigo político”, mas aos perigos da população identificados através da classificação das raças, revela a aceitabilidade de tirar a vida em uma sociedade de normalização. Se a biopolítica quer garantir seu direito de matar, pois o biopoder se funda na articulação das máximas “deixar viver e fazer morrer” e “fazer viver e deixa morrer”, ela tem que funcionar com os dispositivos do racismo. Assim, o sentido de retirar a vida se expande às mortes contemporâneas que já não ocorrem necessariamente na forma de um assassinato direto, mas também nas suas formas indiretas: a morte política, a expulsão, a rejeição, etc. O problema é que esses assassinatos indiretos, essas formas de desqualificação da vida, expandiram seus tentáculos para além do Estado. Basta pensar na diversão que virou assassinar homossexuais no Brasil. O racismo já não precisa mais da mediação estatal, já não é necessário que o Estado decida quem deve viver e quem deve morrer. Vivemos numa sociedade de controle cujos dispositivos de desqualificação se naturalizaram e se articulam sozinhos.
O sexismo é, portanto, uma forma de biopolítica, de disciplinamento, normalização e controle da vida que toma conta do imaginário social. Daí que não deveríamos nos espantar com a afirmação no blog do PSDB de “domar” a deputada Stela, “ela precisará ser polêmica, carrancuda, ditatorial, para chamar a atenção para si. A base aliada terá de ter determinação e firmeza para domá-la. Ou destituí-la, como concede o Regimento Interno da AL, ao qual ela tanto se agarra para justificar seu autoritarismo”. Essa amostra, junto com a caricatura de Marina Silva, representa a marca do racismo e, consequentemente do sexismo, naturalizado. Uma ânsia de desqualificação do outro travestida de ideologia política ou de ilustração. As coisas não parecem o que são, por trás de “não foi a minha intenção” existe uma lógica de aniquilação do sujeito, uma lógica perversa de extermínio que já não podemos olhar com ingenuidade. A guerra não declarada é a lógica do terror e do controle que, junto com a disseminação do racismo, inviabiliza a identificação do carrasco que, por sua vez, passa a ser confundido com a vítima. Essa zona cinza que nos assombra precisa ser repensada eticamente para que a lógica do desastre deixe de ser a regra.
Dastjerdi: primeira mulher ministra no Irã em trinta anos
O direito ao voto só foi concedido às mulheres iranianas em 1963. Cinco anos depois, Fahroku Parsa foi nomeada Ministra da Educação pelo xá Pahlavi. Não durou muito. Em 1979, a Revolução Iraniana veio e Parsa foi executada. Segundo os revolucionários, ela ‘corrompia garotas‘.
Hoje, trinta anos depois, Marzieh Vahid Dastjerdi se tornou a primeira mulher a ocupar uma pasta ministerial no Irã após a Revolução. Entre os 286 deputados presentes na votação, 175 votaram a favor, 82, contra, e 29, em branco. A notícia é pra ser comemorada, mas o fato de as outras duas candidatas indicadas pelo presidente Ahmadinejad – Sousan Keshavarz, para o gabinete de Educação; e Fatermeh Ajorlou, para o Bem-estar Social – não terem sido eleitas ainda deixam um gosto amargo.
Além disso, como era de se esperar, choveram pérolas sexistas. Dastjerdi discursou em defesa de uma maior participação das mulheres no governo, chamando a atenção para o fato de que “entre 60% e 70%” dos universitários iranianos são mulheres e pedindo para os iranianos mostrarem ao mundo que respeitam as mulheres. A resposta veio logo. Ahmadi Khatami, aiatolá conservador, disse que “o Islã respeita a mulher. Mas isto não quer dizer que devamos deixar posições sociais importantes para elas.”
Ahmadinejad, ele mesmo um conservador, vinha sendo criticado desde que propos as três mulheres para o governo. O primeiro encontro encontro de Dastjerdi com o presidente iraniano já como ministra deve acontecer no próximo domingo.
Pesquisa infeliz
O pessoal do Bye Bye Serra fez uma pesquisa: para onde Serra deve ir depois de perder a eleição em 2010? Uma das opções (que, por enquanto, é a mais votada) diz:
Uma casa na Lapa, para fumar maconha e viver um grande amor com uma moça mais jovem.
Desde quando mulher é prêmio? Pior ainda: por que a mulher é uma coisa a ser entregue como prêmio de consolação? E por que tem de ser uma moça mais jovem que ele?
Lembremos ainda que José Serra é casado. Estariam os criadores da pesquisa forçando um ménage à trois, ou Monica Serra foi solenemente ignorada?
Alguém consegue responder essas minhas dúvidas sem falar em sexismo?
Atualização: repito a pergunta final, com uma modificação:
Alguém consegue responder essas minhas dúvidas sem falar em sexismo ou apelar para fofocas?
Ninguém é obrigado/a a saber detalhes da vida íntima das outras pessoas, nem deve divulgar especulações ou fofocas para desqualificar alguém.
Obviamente, os comentários com conteúdo que pode ser considerado fofoca foram apagados.
Os homens podem ser solidários à luta contra o sexismo
Estou muito contente de ter sido convidada para fazer parte desta equipe de mulherada atenta e combativa.
Peço desculpas às parceiras do blog e aos leitores, pois a correria está grande e não estou com tempo de escrever.
Hoje no twitter, Flávio Sousa (@flavio_as) perguntou a mim, @denisearcoverde @semiramis : “existe homem feminista?”
Minha resposta foi algo assim: Como existem mulheres que reproduzem discurso e práticas machistas na educação de filhos e filhas ou que criticam mulheres que se opõem ao sexismo, pode haver homens solidários à luta das mulheres pelos seus direitos e que não reproduzam sexismo
Por isso gostaria de deixar registrado um belo post do Maurício Caleiro (@M_Caleiro) sobre sexismo e eleições e peço licença a ele para reproduzir seu texto na íntegra, aqui:
Sexismo e eleições
25/08/2009
Por Maurício Caleiro
Quem acompanha o blog há tempos sabe que eu, embora apoie o núcleo duro das lutas feministas – e atue na prática na defesa de suas demandas -, tenho uma visão extremamente crítica do feminismo xiita norte-americano, anti-sexo e anti-homem, cada vez mais presente entre nós com sua obsessão pela linguagem e por códigos reguladores de expressão e de conduta e com sua crença no construcionismo social como forma de reprimir o pulsar da natureza. Vi de perto o resultado social disso e não gostei nem um pouquinho.
Mais: tenho a absoluta convicção de que as mulheres brasileiras, com sua sexualidade aberta e pró-ativa, tem muito a ensinar às propagadoras desse feminismo assexuado e baseado na vitimologia, que vira e mexe ameaça – como agora – virar moda nos círculos acadêmicos, intelectuais ou de vanguarda – que vêm a ser justamente os mais colonizados da vida cultural brasileira. Parafraseando um texto feminista recente, traduzido de forma coletiva ao português, mulheres e homens não são o problema; são a solução.
Isso posto, afigura-se assustador o grau de sexismo e de chauvinismo que ronda a próxima disputa eleitoral – em que três candidaturas à Presidência situadas, em gradações variadas, à esquerda do espectro político, podem vir a ser representadas por mulheres: Heloísa Helena (PSOL-AL), Marina Silva (provavelmente PV-AC) e Dilma Rousseff (PT-RS).
Com mais de um ano de campanha pela frente, três episódios recentes justificam tais temores – sobretudo por não serem desferidos pelas forças mais conservadoras da sociedade, mas por comentadores culturais mais ou menos liberais.
Machismo proustiano
O primeiro foi o post de Marcelo Coelho intitulado “Lina Vieira, Dilma Rousseff” no qual a análise sobre o caso envolvendo as duas mulheres limita-se a um contraste sexista entre a “feminilidade de Lina Vieira e a dureza de Dilma”. Num episódio que se tipificou, na “grande imprensa”, pela inversão do princípio consagrado do Direito segundo o qual o ônus da prova cabe ao acusador, Coelho promove outra inversão: entre acusadora e acusada. Assim, acrescenta miopia política e abordagem tendenciosa a um sexismo a la anos 50: Lina, após ter sido, segundo ele, “massacrada no Senado por Romero Jucá, líder da base governista”, “Tornou-se frágil, delicada, do jeito que todo homem espera de uma mulher. Triste e bonito destino”. Sem comentários.
Já contra Dilma, Coelho brada as acusações de sempre: autoritarismo, “ausência de charme”, falta de feminilidade. Quanto a Marina Silva, Heloísa Helena e Marta Suplicy (?), ele pergunta, em tom de acusação: que mulheres são essas?
Sob o pretexto de responder à pergunta-acusação, elenca preconceitos em série: Heloísa Helena, embora “pudesse ser atraente”, “Representa, na verdade, a mesma dureza que Dilma encarna, numa versão mais burguesa. Por que, indago, não ser simplesmente uma mulher?”. É mais uma das muitas platitudes chauvinistas de um texto recheado de pérolas do tipo “O grande problema de uma mulher combativa é o de não parecer histérica” e no qual a inclusão inexplicada de Marta Suplicy – sobretudo se analisada face à exclusão de qualquer outra política da direita nacional, como Yeda Crusius, Roseana Sarney, Rosinha Garotinho ou Kátia Abreu – é significativa das antipatias político-ideológicas do colunista, que ao sexismo vêm se somar.
A grosseria maior de Coelho é direcionada a Marina Silva, que segundo ele não tem nenhum charme e contra a qual, como um machão de pornochanchada dos anos 70, comete a agressão suprema de afirmar que ela “Não é desejável sexualmente”. Educação refinada a do rapaz. Como apontou Marjorie Rodrigues em algum lugar que infelizmente não retive qual, ninguém pensaria em analisar a masculinidade de José Serra.
Embora Coelho tenha tido, ao menos, a decência de, com rapidez e de forma clara, sem subterfúgios, reconhecer que errou e pedir desculpas – procedimento raríssimo nas cercanias da alameda Barão de Limeira – , fica a pergunta: que ódios tamanhos teriam levado um crítico cultural de auto-proclamados laivos proustianos, da melhor estirpe uspiana (ex-aluno de Maria Victoria Benevides, como apontou @Maria_Fro), que sempre se caracterizou por análises equilibradas e detalhadas, a descer tão baixo?
Liberais chauvinistas
O segundo episódio deplorável foi um tweet enviado, na segunda-feira, 24/08, às 23:09h, pelo jornalista Jorge Pontual: “Se você receber um email intitulado: “Fotos nuas de Dilma Roussef”. Não abra!!! Pode realmente conter fotos de Dilma Roussef nua”.
Fiquei chocado. A imagem vendida pelo correspondente da Globo em Nova Iorque busca associá-lo à urbanidade e ao liberalismo, não a uma piada tão infame e sexista. Mas fui checar e, ao que tudo indica, não se trata de um perfil falso. Assim, por mais que o Twitter ultrapasse o âmbito da representação “institucional’ e ceda espaço à expressão do universo pessoal, uma declaração dessas atinge, a um tempo, o ser humano e o jornalista enquanto profissional – pondo em questão tanto sua imparcialidade para lidar, de agora em diante, com tudo que se refira à candidata em questão, quanto, de forma mais ampla, seu sistema de valores enquanto mediador de sentidos (inclusive morais) para milhões de telespectadores.
O terceiro e último episódio chegou a mim também via Twitter: a inacreditável coluna de Ruth de Aquino em Época intitulada “Abaixa esses dedos em riste, Dilma”. Sim, leitor(a), o tom imperativo é um indicativo da truculência verbal que está por vir – truculência esta que Aquino acusa em Dilma Rousseff, como parte dos esforços para “colar”, pela enésima vez, o rótulo de autoritária na pré-candidata do PT. Dessa vez, até um “expert” é chamado para dar bases pseudo-científicas à operação.
O machismo feminino
A coluna, de forma geral, é de uma baixeza e de um ódio figadal que a tentativa de afetar imparcialidade soa não apenas canhestra, mas má-intencionada à canalhice (desculpe, leitor(a), é a primeira vez que emprego tal substantivo adjetivado em um texto analítico, mas não há outra classificação cabível). Distorce os dados relativos às pesquisas de intenção de votos em Dilma, pintando, a partir dessa leitura distorcida, um quadro político-eleitoral inverossímil, baseado sempre no ouvi-dizer, sem citar uma fonte passível de checagem; acusa, por vias transversas, Dilma de mentirosa por, entre outras coisas, ela ter negado o encontro com Lina (como se esta tivesse produzido uma prova sequer de que ele de fato ocorrera); e, por fim, apresenta até “informações” equivocadas (como a que a ministra não teria concluído o mestrado, quando na verdade o fez; o que ela não concluiu foi o doutorado).
Mas o pior é a crítica sexista que domina o artigo, perpetuada através do contraste da figura de Dilma com uma imagem idealizada do feminino como docilidade e “bons modos” – como se estivéssemos na Inglaterra vitoriana. Para tanto, Aquino utiliza-se de uma série de fotos que captam flagrantes ocasionais de Dilma apresentando-se em público, descontextualizando-as e imbuindo-as de uma significação pré-definida de um modo tão tosco que uma criança que nunca ouviu falar em Análise do Discurso desconstruiria tal leitura em poucos segundos. Para tentar reforçar a pífia argumentação, A colunista chama um “psicanalista”, o dr. Daudt.
Daudt, como me lembrou @bruno_pinheiro, é aquele mesmo que, no dia posterior ao acidente com o avião da Tam em Congonhas declarou à Folha de S. Paulo que “”Gostaria imensamente de ter minha dor amenizada por uma manchete que estampasse, em letras garrafais, “GOVERNO ASSASSINA MAIS DE 200”. Ou seja, demonstra não ter nem equilíbrio emocional para exercer a psicoanálise nem isenção política para opinar no caso, como se vê (e as investigações sobre o acidente comprovam, desmentindo-o). Trata-se de mais um desses pseudo-experts sempre à disposição da mídia para referendar seus ataques políticos de baixo nível – na linhagem de Marco Antonio Villa e Demétrio Magnolli, mas de nível intelectual ainda mais baixo do que o desses dois.
Trechos da entrevista falam por si:
“Dilma fez plástica porque a cara que ela tinha antes da plástica era assustadora, era a cara de uma pessoa agressiva, autoritária, impositiva, de dar medo”.
Pergunta: “O que representa esse dedo erguido, a mão crispada?”
Resposta: “Há vários tipos de dedo em riste (…) O dedo cujas costas da mão estão viradas para o interlocutor, enquanto os outros estão fechados, é um gesto stalinista, reflete o desejo de impor uma opinião (…) O dedo erguido é quase um lembrete: olhe, a anágua está aparecendo.”
Armadilhas de gênero
Como essa “taxonomia do dedo”, exata em sua cientificidade e fina em sua expressão, demonstra com brilho, o artigo de Aquino é um lixo. Serve, porém, como um alerta para as armadilhas das questões de gênero – ao mesmo tempo em que reforça o equívoco do feminismo anti-homem made in USA – com o ataque mais pesado à Dilma vindo das penas de outra mulher, uma semana após uma coluna extremamente agressiva à candidata ter sido escrita por Danuza Leão.
Confesso que após ler o texto da colunista da Época fui acometido de uma tristeza profunda. Por um lado, por constatar, uma vez mais, que à tal dieta “cultural” é submetida uma legião de leitores – no caso de Aquino, de leitoras, sobretudo –, inocentes do lixo que se lhes é oferecido e crentes que aquilo é bom jornalismo.
Por outro lado, por dar-me conta de que conheço muita, mas muita gente boa, que não só escreve pra caramba como tem um senso ético apurado que os credencia a exercer um jornalismo incomparavelmente superior ao colunismo de baixo nível de Aquino – porém que simplesmente não encontram emprego.
Ao final, ao realizar uma última checagem para concluir este post, deparei-me com uma constatação que me desolou ainda mais e que se relaciona à razão de ser destes escritos: a de que a responsável pelo tal texto ética e jornalisticamente de quinta categoria é nada menos do que diretora da revista Época no Rio. Numa triste ironia, trata-se de uma mulher que se alçou a uma alta posição ocupada majoritariamente por homens – realizando, assim, um dos objetivos básicos do feminismo de resultados -, mas que se utiliza de sua posição para desferir ataques sexistas à candidata presidencial com mais chances, na história do Brasil, de ser a primeira mulher a assumir a Presidência. Lamentável.
P.S. Cerca de uma hora após publicar este post fiquei sabendo que Flávia Cera também escrevera sobre o tema – um ótimo texto publicado em um blog novo, criado em reação à atmosfera descrita acima e que, como seu nome indica, dedica-se a analisar justamente o Sexismo na Política.
Igualdade de gênero na Marie Claire portuguesa
Ano passado, Inês Pedrosa, diretora da revista Marie Claire portuguesa, fez uma participação memorável na FLIP. Carla Rodrigues relatou essa participação. O post da Juliana m. se refere a esse relato sobre o evento. É interessante comparar a diferença de postura da Marie Claire portuguesa para a Marie Claire brasileira.
No entanto, muitas pessoas que querem ler o relato não estão conseguindo acessar o blog da Carla Rodrigues. Por isso, pedi à Carla autorização para transcrever o post aqui no blog. Ela gentilmente permitiu a transcrição, que se encontra a seguir:
FLIP 2008: uma festa feminista
por Carla Rodrigues
04-07-2008Coube à jornalista portuguesa Inês Pedrosa dar o tom feminista para a edição deste ano da FLIP. Primeiro, na mesa que dividiu com a gaúcha Cíntia Moscovich e a ingleza Zoe Heller, ela leu um trecho belíssimo do seu novo livro, Eternidade e desejo, lançamento da Objetiva.
Depois, no debate mediado pelo também português José Luiz Peixoto – um tanto perdido no papel -, ela deu um show a respeito dos temas feministas. Desde a fala da espanhola Rosa Montero, em 2004, não se ouvia nada tão contundente.
Ela tomou a dianteira – e rapidamente foi seguida por suas colegas de mesa – sobre o velho debate da existência ou não de uma literatura feminina. O dilema incomoda as autoras porque mantém a literatura dos homens como universal, e secundariza as mulheres num papel menor.
Também falou sobre a recente descriminalização do aborto em Portugal, questionando a necessidade de o Brasil avançar neste item. Foi aplaudida entusiasticamente.
Por fim, arrancou gargalhadas da platéia ao contar a história de uma entrevista feita com o então prefeito de Lisboa, Jorge Sampaio, na ocasião de sua candidatura a presidente da República. Diretora da revista Marie Claire, que ela definiu como uma revista feminista, ela havia proibido que se perguntassem às mulheres como conciliam carreira e filhos. A partir dessa ordem, passou a ser imprescindível fazer esta pergunta aos homens.
Diante de um Sampaio atônito, Inês perguntou sobre isso e muito mais: se ele cozinhava, e o que, quais eram seus pratos preferidos e, por fim, se era a favor da interrupção da gravidez, um tema para lá de espinhoso a qualquer político, sobretudo em período de eleições.
Inês contou que Sampaio começou a reclamar de que ela estava gastando muito tempo com essas perguntas e não haveria tempo de conversarem sobre suas idéias.
- É precisamente o que acontece com as mulheres, encerrou ela.
Foi aplaudida de pé.
As perguntas que são feitas
Papo rápido. Li o post abaixo e não tive como não lembrar das capas de revistas femininas que traziam a chamada da entrevista com a Dilma há alguns meses. Cito algumas das perguntas feitas à ministra:
Na Marie Claire:
MC: Gostou do resultado (da plástica)?
MC: Melhorou a autoestima?
MC: Sua relação com a Paula, sua filha, sempre foi próxima?
MC: A senhora trabalhava no governo gaúcho quando a Paula era pequena. Sentia culpa de sair e deixá-la em casa?
MC: Muitos líderes, políticos e empresários acabam se envolvendo tanto com o trabalho que deixam a questão afetiva de lado. A senhora está solteira. Como é lidar com a solidão?
Na revista Cláudia:
CLAUDIA: A senhora se sente sozinha em Brasília?
CLAUDIA: A senhora perdeu 10 quilos. Fez dieta?
CLAUDIA A senhora parece mais saltitante depois da plástica…
CLAUDIA Ficar mais bonita mexeu com sua alma?
