Dilma, seu vestido e sua família

Quanto mais perto da posse, mais bacacas as manchetes da mídia hegemônica. Passo raiva, até. Primeiro era a Dilma desfilando sozinha – digo eu, no meu post semanal no Blogueiras Feministas: QUE BOM! (leiam aqui).

Agora é “o vestido que Dilma usará na posse é segredo de Estado”.

Francamente, preciso repetir a mesma velha pergunta? Se fosse o Serra ou qualquer homem o terno seria manchete? Vão catar coquinho, pseudo-jornalistas!

Queremos mais!

Os homens da política são bem espertos. Frente às demandas das mulheres pra ter espaço na política e no poder, os homens tem algumas estrategias pra contemplar essa pauta, sem perder o controle.

Pra burlar cotas mínimas, por exemplo, tá cheio de exemplo por aí. Tambem tá cheio de casos onde os caras respeitam uma ou outra mulher que tá num cargo de direção, enquanto desqualificam as mulheres organizadas em torno das pautas feministas. E aí essa mulher vira o argumento pra dizer que as mulheres tem espaço, e depende de capacidade individual de cada uma ocupar o espaço, etc. E daí some do debate a noção de que faz parte da opressão das mulheres a nossa exclusão do mundo público e da política.

Parece que a gente resolve o problema do machismo botando uma mulher no poder.

Ter eleito uma mulher presidenta da república representa um avanço concreto e simbólico pra todas as mulheres. Significa que nós temos capacidade pra dirigir o país, e que mais de 55 milhões de brasileiros e brasileiras acreditam na nossa capacidade. Como a nossa presidenta diz, as meninas agora podem querer ser presidenta da republica, o que significa que podem querem mais ser presidentas do gremio da escola, do dce, do sindicato. É uma alternativa ao sonho de ser modelo magérrima que a barbie e o PIG impõem pra gente.

Pra nós, feministas, ter uma presidenta, é uma vitoria a mais em uma historia de luta, que ainda tem muito mais por conquistar. A eleição da Dilma é uma vitória das mulheres e do feminismo, porque precisou de muito feminismo pra gente ter direito a votar e ser votada. Milhões de mulheres, no Brasil e no mundo, lutaram e lutam pelo direito ao trabalho, a educação e ao voto como um caminho pra ter igualdade de fato, liberdade pra decidir sobre nossa vida, nosso corpo e nossa sexualidade, ter direito a uma vida sem violência, etc.

Tendo a noção dos desafios que a gente tem que enfrentar pra conquistar igualdade e liberdade pra todas as mulheres, a gente consegue se organizar pra enfrentar o machismo que vem pela frente, inclusive na composição do nosso próximo governo.

Se a Dilma levar a frente a idéia de ter pelo menos 10 ministras (o que equivale a um terço do ministério), vai ter muito homem descontente por aí. Vão fazer cara feia, desqualificar as possíveis ministras na base do machismo, como vimos na campanha da própria Dilma.

A gente aprendeu no ensino fundamental que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Nem na política.

A gente aprendeu na política, que pra uma mulher ocupar um espaço de poder, um homem tem que sair.

O machismo de José Serra

Já era de conhecimento público o machismo de José Serra. Em 2009, FHC descreveu Serra para a revista Piauí:

“Antes de decidir, ele ouve bastante gente, mas leva mais a sério as mulheres. Como o Serra é muito competitivo, qualquer conversa dele com um homem tende a se tornar um embate. E com as mulheres ele acha que não tem competição”.

Essa visão de superioridade masculina sobre as mulheres marca os comentários de José Serra. Ele reproduz o cânone machista que inferioriza a mulher, retira dela a autonomia e a transforma em objeto de seus interesses políticos.

José Serra flerta com jornalista quando está sendo entrevistado. E mesmo se dizendo cristão devoto, afirma que na política pode-se ter amantes, desde que seja de forma discreta.

Ele não tem pudor em usar e descartar mulheres na campanha, mesmo que sejam parentes. Colocou a esposa para atacar Dilma falando de aborto. Confrontado sobre esses ataques durante debate televisivo, optou por se calar ao invés de explicar a situação ou defender o posicionamento da esposa. Quando veio a público que Monica e José Serra haviam feito um aborto, Monica foi afastada da campanha.

Ele também usou a filha Veronica: trouxe a público a quebra de sigilo fiscal de Veronica, ocorrida em 2009, acusando o PT de ser o responsável pela quebra de sigilo. No entanto, a quebra de sigilo resultou de disputa entre tucanos mineiros e paulistas. Assim que começaram a divulgar a responsabilidade dos tucanos, e irregularidades sobre Veronica a respeito de quebra de sigilo de brasileiros se tornaram matéria de capa na Carta Capital, Veronica foi convenientemente tirada de foco.

A última pérola machista aconteceu ontem. Em Uberlândia, José Serra afirmou:

“Se você é uma menina bonita, tem que conseguir 15 votos. Pegue a lista de pretendentes e mande um e-mail. Fale que quem votar em mim tem mais chance com você”.

Com isso, ele está sugerindo que função de mulher ser cabo eleitoral, manipulando “pretendentes” (vocabulário do século XIX!), trocando atenção masculina por votos. Em resumo: agir como prostituta, não para obter dinheiro e se sustentar, mas para obter votos para ele. No Twitter, Serra foi duramente criticado e recebeu a hashtag SerraCafetao, que está tendo grande repercussão.

Atenção para o “menina bonita“, que descarta, de uma vez só, as mulheres adultas e as mulheres feias (quem define “feiúra”, se beleza não é um padrão universal?) José Serra está reforçando a misoginia e deixando evidente o contexto machista de toda a campanha eleitoral tucana: papel de mulher é ser bonita, obediente e disposta a favores sexuais em nome de um candidato.

Outros episódios serristas podem ser elencados, como a constante tentativa de desqualificar em termos machistas a candidata Dilma Rousseff.

Fica claro que, para José Serra, lugar de mulher é sob as ordens dele. Ele até ouve os conselhos (será que ouve críticas também?) das mulheres, e depois as deixa em segundo plano, retirando-as do limbo somente quando necessário para atingir fins políticos. Se não os atinge, elas são descartadas e ignoradas.

Fato: José Serra é machista. Ao expor seu machismo continuamente, acaba por perder o respeito das mulheres que têm autonomia, que não querem ser manipuladas, que se recusam a agir como prostitutas eleitorais.

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De feministas de direita a amélias pitbull

Uma das coisas que aprendi sobre o movimento feminista é que ele vai além da oposição direita-esquerda. A história do movimento feminista brasileiro é feita por mulheres dos mais diversos partidos políticos, e vai além disso. Afinal, machismo não escolhe ideologia política ou econômica.

É por isso que não me espanto ao ver elogios à dra. Ruth Cardoso, ou à dra. Eva Blay, entre outras feministas tucanas. Nos tempos dos tucanos no poder, foram elas quem lutaram para que os direitos das mulheres não fossem reduzidos. E, por mais que a atuação delas possa ser considerada discreta, ela existiu e fez a diferença para todas nós.

Infelizmente, a independência e força das feministas de direita acabou. As mulheres de direita em destaque hoje representam um retrocesso no papel das mulheres. O Mobiliza Mulher fez um papelão nesta campanha, Monica Serra escolheu agir de forma constrangedora para apoiar a campanha do marido, e as reuniões de mulheres do PSDB são para serem ouvintes dos homens.

Atenta a essas mudanças de posicionamento, Cynara Menezes escreveu um artigo muito bom para a Carta Capital analisando o papel desempenhado por Monica Serra e Weslian Roriz nestas eleições:

Dona Ruth foi de longe a mais completa das primeiras-damas, mas ainda assim era primeira-dama, não presidente. E vejam só. Agora que se desenha a possibilidade de termos finalmente uma mulher no cargo máximo da Nação, e não um apêndice – admirável ou não -, eis que duas integrantes do sexo feminino saem da sombra onde se achavam para colocar as brasileiras “no seu devido lugar”, com a mensagem subliminar de que não nascemos para presidir, e sim para sermos eternamente primeiras-damas. No máximo, vice-presidentes, cargo que Rita Camata topou ocupar ao lado de José Serra em 2002. Presidente, não. Se ser primeira-dama é tão bom, toda a glória e nenhum poder…

Leia o artigo completo: O levante das Amélias pitbull

Deputada Manuela: mulheres são adjetivadas na política

Merece destaque um trecho do post da deputada Manuela comentando o debate na Band, pois resume bem todo o sexismo na política brasileira:

Nossa cultura avançou muito. Prova disso é que mais de 60% do eleitorado brasileiro votou nas duas mulheres para presidente da República. Mas conheço bem esse tipo de adjetivação. Mulheres são adjetivadas na política. Homens muito menos. Lembro quando conquistamos meu mandato de vereadora. Na mesma eleição um jovem homem elegeu-se. O locutor do rádio dizia: “quem esta entrando é aquela jovem bonitinha”. Quanto ao homem, afirmava: “é um jovem competente com origem no movimento estudantil”. Casualmente militávamos na mesma universidade. Eu na oposição, ele na situação. Eu havia feito mais votos. Mas era a bonitinha.

Cada vez que subimos na tribuna indignadas somos tachadas de histéricas. Eles são convictos e ficam perplexos. Nós temos a vida pessoal vasculhada (somos “sapatonas”, como li ontem no twitter sobre Dilma; mantemos relações sexuais com alguém para chegar onde chegamos…). Eles? Bem, ninguém tem nada com a vida pessoal, devemos nos preocupar com a vida pública.

Não deixe de ler o post completo: Uma análise do debate da Band.

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